Quem nunca discutiu sobre o crescimento das cidades, a minha principalmente? Porque em São Paulo não cabe mais ninguém, porque tem trânsito para todo lado, porque ela está inchada e não comporta mais a sua própria população, etc. Todo ano a Vejinha publica aquelas matérias estúpidas sobre ‘como resolver os problemas da grande metrópole’, cheias de politicagem e ZERO urbanismo.
Um assunto que me apareceu outro dia e que me deixou realmente intrigado é exatamente o oposto. Muito se estuda sobre como resolver a cidade que cresce, mas que tipo de urbanismo se deve criar para cidades que estão diminuindo? Soa estranho imaginar algo desse tipo em uma época em que a demanda populacional é sufocante e a oferta de víveres cada vez mais escassa. Mas imagine por exemplo como fica uma New Orleans pós-Katrina, que teve sua população reduzida em 50,6% entre 2000 e 2007.E nem só de grandes catástrofes naturais vivem as shrinking cities. Nesse mesmo período, Detroit teve sua população reduzida em 3,7%, Pittsburgh, 7,5% e Cleveland, 9,2%.
Uma iniciativa muito interessante está tomando corpo estado de Sachen-Anhalt, no nordeste da Alemanha. Desde a queda do muro, a ex-Alemanha Oriental está presenciando um grande êxodo da população jovem, o que envelhece a sociedade, diminui as taxas de natalidade e gera a estagnação da economia. Vinte anos depois, o cenário agora está repleto de edificações abandonadas e grandes vazios urbanos.
O governo do Estado se uniu à Fundação Bauhaus de Dessau (onde nasceu a famosa escola) e a um Programa de Desenvolvimento do Estado para criar em 2002 o plano IBA Urban Redevelopment 2010. A idéia é resolver espacialmente essa questão em 19 cidades da região, com estratégias individuais reforçando as potecialidades de cada município.
Em Dessau mesmo, o plano adotado é o de um ‘arquipelado de ilhas urbanas em um mar de paisagem’. As construções abandonadas foram compradas a preços reduzidos pela prefeitura, demolidas e seus lotes deixados para serem tomados pela vegetação natural. Nada de parques, humanos demais, apenas mata. Lotes de 20×20m podem ser requeridos pela população, que deles passam a tomar conta, mas a intervenção do homem na recomposição da paisagem é mínima.
Halberstadt, um outro caso, é uma cidade que foi bombardeada na Segunda Guerra, e nunca teve seus destroços reparados. Os vazios deixados por tanto tempo agora são encarados não pela perspectiva de mudança de cenário físico, mas de atitude em relação à qualidade do vazio. Discussões públicas associadas a intervenções artísticas levam a população a discutir o espaço e perceber as possibilidades que ele oferece. Em grande parte das ações promovidas, a área gerou grande interresse imobiliário e não raro o espaço foi tomado por grandes construções.
Cada cidade recebeu um slogan para seu plano, e alguns são realmente intrigantes. Köthen, por exemplo, segue o lema ‘Homeopatia como força de desenvolvimento’. StaBfurt é a mais radical: ‘Desistindo do centro histórico / Novo lago urbano como novo centro da cidade’.
Segundo Sonja Beeck, coordenadora do projeto, a meta é entender que os vazios urbanos são devastadores em termos de urbanismo, mas são eles também que oferecem oportunidades para se construir o futuro.
Steven Holl nunca dormiu no ponto. Há uns cinco anos, quando começaram as movimentações para as obras das Olimpíadas de Pequim, ele foi lá negociar alguns projetinhos entre um chop-suey e outro. Hoje ele deve ser o arquiteto com mais projetos de grande porte recém-inaugurados ou ainda em construção (só desses são 3).
Aproveitando-se do capitalismo desvairado em explosão no país, Holl conseguiu emplacar seus projetos mais ousados na terra que mais busca a ‘novidade pela novidade’ em todas as áreas hoje em dia. Claro que desse desvario arquitetônico vão aparecer grandes desastres urbanísticos, mas nós talvez ainda vamos demorar para saber. Mas uma obra específica, do velho-de-guerra Holl, talvez seja a concretização de muitos sonhos de estudantes de arquitetura às turras com seus projetos de conclusão de curso.
O Linked Hybrid, como foi intitulado, é um gigantesco conjunto de 8 edifícios de usos variados que tinha a premissa de criar novas realidades de conexão entre espaços públicos e privados. A solução do americano foi conectar todos os edifícios no 21º e 22º andares através de grandes pontes que abrigam mais do que circulação – Esse novo layer da cidade receberá restaurantes, galerias e muitos outros serviços, completamente abertos ao público.
A praça central formada entre os prédios terá um lago e um complexo de cinemas se encarregará de trazer o público para dentro. O sistema de ventilação dos prédios conta com 660 poços de ventilação que se enterram 100m dentro do solo, buscando o resfriamento perto de lençóis freáticos profundos. Holl ainda toca na China as obras do complexo de Vanke Center em Shenzhen e o Museu de Arte e Arquitetura de Nanjing.
No Brasil, a completa inoperância do Governo, associada administrações de patrimônio história extremamente conservadoras e inflexíveis, e um mercado imobiliário voraz, nos fazem engolir ‘Alphavilles’ e ‘Barras da Tijuca’ como futuro para nossas cidades, enquanto os centros de esvaziam e se arruínam, periferias entopem como esgotos, e a classe média se fecha em carros blindados, estacionamentos e muros de condomínios.
O retrofit é hoje uma das disciplinas mais trabalhadas na Europa, que nada mais é do que a requalificação de construções antigas para adequá-las a novos usos e reintegrá-las à vida urbana. Seja para transformá-las em residências, comércio, grandes instituições públicas ou mesmo para mantê-las como marco da cultura e da história, o retrofit pode e deve ser aplicado a boa parte dos edifícios hoje largados às traças e aos cortiços invadidos que dominam a riquíssima paisagem dos centros de São Paulo e Rio de Janeiro.
Existe retrofit no Brasil? Não podemos negar que sim. Temos que admitir que alguns desses projetos foram maravilhosamente executados, como no caso da Pinacoteca de São Paulo nas mãos de Paulo Mendes, ou seu anexo, no antigo prédio do DOPS, importante construção da história do Brasil da ditadura, ou o já clássico projeto da Lina Bo no SESC Pompéia. O Banco do Brasil espalha seus centros culturais pelo país, e em Porto Alegre um hotel foi ‘condecorado’ com esse título. Mas os esforços hoje nesse processo pecam quase sempre em seu objetivo final, fazendo brotar da terra uma infinidade de ‘centros culturais’ que muitas vezes nem objetivo de ser tem. Ou pior, restaura-se o edifício e entrega-se o espaço para usos indefinidos, o que pode acabar com as potencialidades do projeto (vide a Casa das Caldeiras, em São Paulo).
Centros culturais são sempre bem vindos, e influem positivamente na sinergia urbana do edifício e seus usuários, mas muitas vezes perdemos a chance de interagir diretamente com a arquitetura e inserí-la definitivamente no contexto das nossas vidas. Enquanto na Europa, os edifícios são encarados como espaços a serem utilizados, nós nos prendemos a convenções e questões semânticas e morais antes de propor novos usos aos prédios.
O retrofit, por aqui, teve alguns pequenos esforços em se livrar das amarras impostas pelo CONDEPHAAT e driblar a estampa perigosa do centro cultural. O Shopping Light, por exemplo, tem uma premissa interessantíssima, mas perdeu-se em um projeto pouco eficiente. Temos hoje em curso na Avenida São João um dos primeiros projetos de retrofit residencial, justo em um edifício do grande Ramos de Azevedo, a espera que uma análise pós-ocupação. Espero que o resultado seja ao menos mais feliz que os inúmeros cinemas nababescos do centro transformados em salas de filmes pornôs deprimentes, ou o cinema do COPAN, fantasiado como uma ofensiva filial da Igreja Universal.
A arquitetura holandesa do século XIX briga por centímetros de nariz com a espanhola pelo pódio, mas elas concorrem com trunfos diferentes. Enquanto a ibérica se esmera em plásticas poéticas e grandiloqüência lúdica, os Países Baixos apresentam as soluções mais inovadoras em questões teóricas, urbanísticas e antropológicas. Talvez a condição territorial tenha forçado o estudo precoce de projeto sobre uma natureza fabricada, e só agora o resto do mundo entenda o que é habitar um mundo em colapso.
O escritório MVRDV, sediado em Rotterdam e formado pelos arquitetos Winy Maas, Jacob van Rijs e Nathalie de Vries, é um dos mais expressivos e prováveis grandes sucessores do incansável Rem Koolhaas, um dos maiores críticos do urbanismo pós-moderno. Não à toa, os dois sócios colaboraram com Koolhaas nos anos 80 no OMA (Office for Metropolitan Architecture), enquanto Nathalie trabalhou no escritório Mecanoo.
Com uma arquitetura singular, analítica e metodológica, busca uma posição fora do campo da arquitetura, intervindo socialmente e ecologicamente no meio. A estética resultante, sejamos sinceros, é complexa e muitas vezes polêmica. Mas a provocação visual intrínseca às suas teorias são sempre fortes armas de posicionamento frente às discussões por elas geradas.
Formado em 1991, o trio ganhou notoriedade pelo projeto do pavilhão holandês na Expo 2000 em Hannover. Uma torre de paisagens empilhadas (campos de tulipas, dunas, florestas, um lago e moinhos de vento no topo) discutia a auto-suficiência de recursos naturais em áreas compactas e populosas, bem antes das recorrentes manchetes alarmistas de aquecimento global.
A obra deles ganhou notoriedade e se espalhou pelo mundo. Projetos como os vertiginosos apartamentos do asilo WoZoCo em Amsterdam, intrigam e instigam o observador a conhecer de perto. Os edifícios residenciais Mirador, em Madrid e Silodam, também em Amsterdam, propõem novas tipologias de adensamento. O projeto de casas em uma encosta em Liuzhou, na China, coloca a habitação como forma de conter a erosão do solo (favelas ecológicas?). E o corrente anexo do Cleveland Institute of Art serpenteia-se ironicamente sobre o edifício original careta.
Ontem arrombaram meu carro. Estacionei em frente a um shopping-center movimentado por 10 minutos necessários para se comprar um ingresso de cinema e voltei a tempo de ver 4 adolescentes fechando as portas e indo embora. Não levaram nada, porque nada havia para se roubar.
Hoje recebo a revista Trip de julho (#168), e o tema da edição é MEDO. Curioso foi perceber que uma boa parte da revista trata de arquitetura e urbanismo, pois curiosamente estas são as áreas onde o medo mais fica latente. ‘As cidades contemporâneas, instaladas sob o signo do medo, são imensas massas construídas com quase nenhuma arquitetura. Gradeamos praças, nos isolamos em muros altíssimos em nossas casas e trancamos nosso olhar em janelas que não se abrem ao vento.’ escreve Ciro Pirondi, diretor da Escola da Cidade.
Moro em um prédio dos anos 50, e o primeiro comentário de 100% das minhas visitas é sobre as enormes janelas que trazem a cidade para dentro da minha sala. Muitas delas não percebem que o choque ao ver minha fachada quase corbusiana acontece exatamente porque elas se acostumaram a viver em bunkers mal-iluminados, com aberturas mínimas obrigatórias pelo Código de Obras. Elas não entendem que gostam de jantar no Spot, não porque a comida é boa, mas porque o restaurante se abre para um gigantesco espaço vazio em plena Avenida Paulista.
O pintor trabalha a imagem, o escultor trabalha o volume. O arquiteto tem como matéria-prima o vazio. É no vazio que entram os raios de sol, a brisa da manhã, o barulho dos pássaros. Nos bunkers que mercado imobiliário chama de condomínios só entra a alienação, a segregação e a asfixia. As pessoas saem blindadas de suas casas diretamente para outras garagens. Seu contato com a cidade é protegido pelo insulfim. A vida é um grande estacionamento.
A negação do espaço público não é exclusividade dos bem-nascidos. As periferias há muito deixaram de ter a cara de ‘cidade do interior’ e também aderiram aos muros com lanças no topo, grades e arame farpado. A rua é terra de ninguém. A arquitetura hoje usa elementos medievais de proteção: muralhas, fossos, torres de vigia e trincheiras.
Em 1961, Jane Jacobs escreveu o tratado ‘Morte e Vida nas Grandes Cidades‘. Hoje o livro é tido como ultrapassado, mas é surpreendente perceber que há 40 anos já se delineava uma situação que hoje passou do controle. Ela pregava a zeladoria da própria sociedade como a forma mais eficaz de manutenção da segurança e da democracia nas ruas. Em tempos de individualismo patológico, o carro é arrombado no meio de dezenas de pessoas e nenhuma delas esboça reação.
Na carta de Ricardo Guimarães, presidente da Thymus Branding, que encerra a edição da revista, levanta-se a questão de que uma empresa pode desmoronar mesmo se todas as áreas são totalmente eficientes, mas existe problemas entre as áreas. A cidade não é um mero aglomerado de lotes, e sim a malha pública que une a todos eles. Na hora em que nos encarceiramos em nossos próprios umbigos, a rua vira zona de guerra: o mais forte leva, e nós a estamos perdendo.
Ricardo sugere que ‘baixemos os muros até o ponto que dê para ver a rua e o vizinho. Assim, um cuida do outro e todos do que é comum. Quem sabe, com muros mais baixos, a gente veja o ladrão antes de ele invadir nossa casa ou até mesmo antes de ele ter alguma razão para virar ladrão.’ Talvez um pouco da mesquinhez com a vida alheia que vemos em Wisteria Lane seja saudável. Jane Jacobs nunca esteve tão certa.
Le Corbusier, tido como papa da arquitetura moderna, propôs que a construção de casas não fosse algo livre e pessoal como fazer compras de supermercado ou de roupas. Ele sonhava com um mundo onde fábricas cuspissem residências prontas para serem usadas por qualquer ser humano do planeta. Eram as ‘máquinas de morar’, que levavam a extremos os cânones chamados ‘cinco pontos da arquitetura’, que ele tinha como imprescindíveis ao projeto de residências. A partir dali, nada mais era arquitetura, ninguém mais poderia fazê-la.
Prepotências a parte, Le Corbusier é tido como um dos maiores arquitetos do mundo não pelos seus projetos em si, mas porque ele foi o primeiro grande visionário a acreditar que poderia projetar um futuro da civilização. Nos filmes vimos carros voadores, roupas metálicas, comida em cápsulas e robôs substituindo-nos em nossos afazeres. De 2001, uma Odisséia do Espaço a Jetsons, todos nós já tivemos uma fantasia de futuro. Mas a verdade é que o futuro já chegou, e nada daquilo realmente aconteceu.
Ao longo do século XX, vários arquitetos e escritórios vieram com idéias mirabolantes de como viveríamos dali a 20, 30, 100 anos. O Archigram talvez seja o grupo com as idéias mais interessantes, com suas cidades ambulantes nos anos 60, que vagavam atrás de conexões com outras. Verner Panton foi o mais pé-no-chão, trazendo esse imaginário futurista para dentro das casas da mesma época, com muito apuro estético e pouco deslumbre.
Por aqui tivemos um grande idealista, que foi o arquiteto Eduardo Longo. Ele construiu sobre sua casa uma maquete em tamanho quase real do que seria o protótipo da casa industrial ideal: uma casa que saia pronta da fábrica, que poderia ser colocada em qualquer lugar, ainda mais que a de Le Corbusier, pois já vinha moldada com privada, fogão, varal, etc, e se sustentava sobre um único pilar. Nascia a Casa Bola. O protótipo rendeu uma outra casa para os pais do arquiteto no Morumbi, mas esta já se afastava completamente do ideal inicial. Hoje ela paira desconfortavelmente numa localização privilegiada da cidade, com cara de brinquedo de parque de diversões.
O japonês Kisho Kurokawa imaginou outro futuro, em que as pessoas se compartimentariam ao mínimo, e criou a cápsula para morar. Construiu inclusive um prédio inteiro de cápsulas que chegou a ser inteiramente ocupado. Pois nem os espremidos moradores de Tókio se convenceram da idéia e o edifício deve ser demolido este ano para dar lugar a mais uma gigantesca torre de apartamentos não-tão pequenos.
Onde foi parar o futuro? O que podem imaginar os arquitetos como utopias que pelo menos norteiem a produção edificante daqui para frente? Hoje tudo que se projeta suporta-se sobre os pilares da qualidade de vida, da sustentabilidade e da ecologia. Ok, estamos perto do fim do mundo, ninguém pode negar. Mas estamos já tão perto que perdemos a chance de imaginar-nos daqui a 50 anos? Estamos fadados a imaginar apenas uma forma menos agressiva de habitar o mundo pelo tempo que nos resta e tentar reparar minimamente o estrago que 5 mil anos de humanidade causou? Eu ainda tenho esperança de usar roupa metálica e ter um robô-faxineira.
contra o neo-classicismo
contra os muros e grades,
contra o mercado imobiliário,
contra os carros blindados,
contra o puxadinho e o barraco,
contra o carpete de madeira,
contra janelas mínimas,
contra trânsito e corredores de ônibus,
contra o porcelanato na sala,
contra o (não)urbanismo caótico,
contra maisons, palazzos e residentials,
contra o condomínio,
contra o subúrbio e a periferia,
contra o mau-gosto e a burrice,
contra a falta de cultura,
por uma boa arquitetura