E inauguraram finalmente o mais novo elefante branco da arquitetura brasileira: a ponte Octávio Frias de Oliveira. Passando sobre a Marginal Pinheiros, ela possui duas pistas curvas de 190m cada estaiadas a um imenso pilar em ‘X’ de 138m de altura, equivalentes a um prédio de 46 andares. A obra custou ‘módicos’ 260 milhões de reais, e já foi adotada pelos paulistanos, ávidos por qualquer marco que tente embelezar a cidade, como cartão-postal. Kevin Lynch se revolve no túmulo.
São Paulo há muito busca algum tipo de identidade visual em meio ao caos e à feiúra que dominou cada ruela. Primeiro elevaram a Avenida Paulista a status de marco. Convenhamos, uma avenida larga e longa, ladeada por uma série de prédios nem tão altos, nem tão bonitos, nem tão modernos assim. Apenas mais uma avenida comercial, como em qualquer grande cidade do mundo. Catedral da Sé, Parque do Ibirapuera, tudo mais do mesmo. O MASP sim tem porte para assumir tal posto. Uma construção única e universal na sua proposta, em uma localização perfeita. Mas brochou, graças à sua lamentável administração, e à assombrosa paisagem que tomou conta da vista do térreo. Assim considero as carambolas e melancias de Ruy Ohtake como um sopro de novidade (questões estéticas de lado).
Agora prefeituras e empresas de engenharia nos enfiam goela abaixo o que eles chamam de uma construção única no mundo, como se fosse caramelo para criança. ‘A única ponte estaiada curva dupla do mundo!’ Óoooo! Todos os engenheiros que comentam a obra insistem em ressaltar a dificuldade de se calcular as forças exercidas sobre os estais em pontes curvas, ainda mais no caso da dupla. A Europa, que tem as melhores tecnologias e os melhores projetistas do mundo nesse aspecto, fez algumas poucas e simples. Por que eles nunca pensaram em fazer uma dupla, pergunto eu? Talvez pela grande dificuldade, com péssimo resultado estético e alto custo de obra? Então para que mesmo os brasileiros pernósticos a ponto de quererem fazer a primeira? O mundo deve estar rindo da nossa cara, como nós tão deliberadamente fazemos em relação aos portugueses.
O que mais me incomoda é a facilidade como a população leiga se animou com o monstro X. A falta de repertório faz com que as pessoas achem aquele novelo amarelo bonito, só porque é algo nunca visto. Mas não é preciso ser pós-graduado para perceber que a composição não tem ritmo, esbeltez, harmonia ou ordem. É uma teia de aranha fluorescente com uma grande bigorna Acme no meio. Eu preferia até a divertidíssima ponte-piada do Marcio Kogan. Se ao menos todos tivessem a oportunidade de conhecer as lindas pontes de Sir Norman Foster, ou melhor, as esculturas em forma de harpa do mestre Santiago Calatrava.





Isso sim, pode-se chamar de poesias que cruzam rios. A nossa é apenas mais uma forma frustrada de conter o trânsito cada vez mais enlouquecedor. Terminar o Rodoanel, melhorar o transporte público, acabar com o inchaço urbano… quando será que os projetos urbanos serão mais estratégicos e menos paliativos? Em tempo, quantos quilômetros de metrô se constroem com 260 milhões?