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Fim de um longo silêncio (com dicas arquitetônicas de Buenos Aires)

Wednesday, January 21st, 2009
Depois de umas belas férias, aqui estamos de volta. Férias por dois motivos. O primeiro porque andei às turras com as fantásticas empresas de fornecimento de internet no Brasil, mas como não quero contaminar esse blog com energias negativas, vamos deixar esse assunto para lá.
O segundo, e bem melhor, é que eu mesmo me dei férias e fui conhecer Buenos Aires. Uma vergonha ter ido só agora, já que tenho familiares argentinos. Mas no fim das contas, acabou sendo boa essa demora, já que pude conhecer muita coisa bacana que só foi concluída recentemente, e aproveito para rechear essa minha volta com fotos próprias. Triste só foi constatar que até nossos hermanos estão muito mais aculturados em arquitetura, e importantes obras estão surgindo por lá. Ficamos aqui no aguardo para ver se o projeto do Teatro de Ópera e Dança dá um empurrãozinho na nossa capenga arquitetura contemporânea.
Nem preciso comentar que o mais emocionante foi cruzar o canal do Puerto Madero por cima da Puente de la Mujer, do mestre das pontes Santiago Calatrava. Já falei sobre esse assunto aqui, já postei até foto da ponte em questão, mas ver ao vivo é sempre emocionante. Nem preciso dizer o quanto aquela harpa gigante é linda, elegante, etc.

A ponteA placa da ponte

Também passei pelo Hotel Faena, ali petinho. Projeto do celebrity-designer Phillip Strack, confesso que guardava grandes expectativas e me decepcionei. Consagrado por um estilo kitsch-chique, eu achei um pouco cafona mesmo, mas não conte para ninguém que eu disse isso. O hall de entrada se prolonga por um longo corredor soturno, com pesadas cortinas de veludo, e em nada combinava com o calor sengalês que fazia lá fora. ‘Thumbs Up’ ficam mesmo para a piscina, que é de uma delicadeza única. O bar, aberto ao público, é uma tosca mistura de móveis clássicos em torno de um piano, e quem quiser se aventurar, pode desembolsar os 100 pesos de consumação mínima (cerca de 70 reais). Quer saber, melhor ir no Hotel Fasano do Rio, que vale muito mais a pena.

O hall de entradaKitsch ou cafona?A piscina

Mas logo ao lado do hotel, uma boa surpresa. Um grande lote com um stand de vendas anunciava que ali o Grupo Faena vai lançar um empreendimento residencial com projeto de ninguém menos que Sir Norman Foster, o primeiro dele na América do Sul. Dedos cruzados para que ele se anime com a experiência e volte para fazer outras.

Placa do empreendido novo do Faena

Também são incríveis os museus MALBA, em Palermo, e PROA, na Boca. O primeiro, o Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires, guarda preciosidades como o Abaporu, de Tarsila do Amaral, um auto-retrato de Frida Kahlo, Diego Rivera, Lygia Clark, Helio Oiticica, Botero, entra muitos outros grandes. Isso sem contar a arquitetura bem cuidada dos jovens arquitetos Alfredo Tapia, Martín Fourcade e Gaston Atelman. O projeto foi escolhido entre mais de 450 inscritos no concurso de 2001, que tinha no juri gente do peso do próprio Foster, Kenneth Frampton, Cesar Pelli e Mario Botta.

Vista externa do MALBAVista interna do MALBA

O outro, o mais novo espaço dedicado à arte contemporânea da cidade, ficou fechado por mais de um ano para reformas comandadas pelo escritório italiano Caruso-Torricella, e reabriu incorporando ao edifício antigo dois volumes de vidro, um em cada lateral, e o interior amplo, iluminado e bem minimalista. Melhor ainda foi achar lá a exposição do Duchamp, que passou por aqui em 2008 e eu perdi.

A entrada do PROAA livrariaO urinol

Menos cultural, mas não menos interessante, é o restaurante Olsen. Inteiro decorado com móveis e influências escandinavas, o célebre design da região aparece por todos os lados: nas cadeiras, nos talheres, no cardápio e no menu degustação de vodkas, com mais de 50 tipos diferentes. Recomendo o brunch preguiçoso, que se estende até as 8hs da noite.

Vista geral do OlsenLareira no centro do salãoCopos com design escandinavo

Passei pela livraria El Ateneo, que é realmente linda, mas menor do que eu esperava. Não resisti e comprei dois livros, um do designer Jean Prouvé, e outro do artista León Ferrari, mas os livros lá não são muito baratos. E fora isso, visitei um bom milhão de construções clássicas que tanto caracterizam a cidade tida como a mais européia da América do Sul, mas não vou falar a respeito porque senão isso fica ainda mais longo e chato. Quem passar por lá pode descobrir por si só o que Buenos Aires guarda em cada canto escondido.

Um H&dM em São Paulo?

Monday, December 15th, 2008
Na semana passada, a equipe do escritório de Herzog & de Meuron deixou o Brasil, levando todos os dados e levantamentos necessários para o projeto do Teatro de Ópera e Dança de São Paulo. O projeto deve ser entregue em março, com início das obras previstas para julho, com término no final de 2010. Veremos.
Os arquitetos suiços (que eu já falei muita coisa que fizeram) foram os escolhidos pela Secretaria da Cultura, que tinham como opções nomes de peso como o OMA, Norman Foster e Cesar Pelli. Entretanto, a dupla vai ter que adequar seu projeto a uma série de especificações técnicas da empresa inglesa Theatre Projects Consultants, especialista na construção de teatros. Para nós soa até estranho que um órgão público esteja mais preocupado com a qualidade da construção do que a mídia a que ela vai servir, ?
O teatro vai ocupar o quarteirão em frente à Sala São Paulo, onde antes ficava a rodoviária da cidade, e hoje é ocupado por um pseudo-shopping de gosto duvidoso. Por enquanto, só notícia boa. Um teatro novo, com um projeto fodástico, em área de grande potencial de revitalização, e acabando com a feiúra existente.

Mas nem tudo está correndo com tranqüilidade. Primeiro, pressionado pela opinião pública, o IAB solicitou explicações a respeito da contratação do escritório suiço, alegando que o processo de escolha é nebuloso e que pode ter havido negociações ilegais. Segundo, muito está se discutindo sobre a comissão oferecida aos arquitetos, que varia de 6,5 a 8,5% do valor da obra. Considerando-se que o orçamento para o teatro é de R$300 milhões, tem muita gente achando absurdo eles ganharem pelo menos R$19 milhões por um ’simples projeto’. E terceiro e inevitável, é o bairrismo brasileiro que não se conforma com a não inlcusão de nomes brasileiros entre os concorrentes.
Se a contratação é irregular ou não, já sabemos que nunca vamos descobrir, e vamos contar com o IAB, que sempre foi uma instituição muito responsável, para manter o mínimo de controle sobre o assunto. Agora, é inacreditável que o brasileiro ainda ache que projeto é apenas um desenho e que não precisa pagar por isso. Quando é uma ponte horrorosa que não serve para nada, tudo bem, mas quando é um equipamento de cultura…. Fora isso, Niemeyer pode construir em Paris, Paulo Mendes em Lisboa, e aqui não pode ter estrangeiro trabalhando? Nem preciso dizer o quanto a paisagem chinesa se modificou com a interferência internacional, e nós claramente não estamos dando conta da nossa. Então por que não tentar? Eu estou esperando ansiosamente.

X-Fail em São Paulo

Monday, May 12th, 2008

E inauguraram finalmente o mais novo elefante branco da arquitetura brasileira: a ponte Octávio Frias de Oliveira. Passando sobre a Marginal Pinheiros, ela possui duas pistas curvas de 190m cada estaiadas a um imenso pilar em ‘X’ de 138m de altura, equivalentes a um prédio de 46 andares. A obra custou ‘módicos’ 260 milhões de reais, e já foi adotada pelos paulistanos, ávidos por qualquer marco que tente embelezar a cidade, como cartão-postal. Kevin Lynch se revolve no túmulo.

São Paulo há muito busca algum tipo de identidade visual em meio ao caos e à feiúra que dominou cada ruela. Primeiro elevaram a Avenida Paulista a status de marco. Convenhamos, uma avenida larga e longa, ladeada por uma série de prédios nem tão altos, nem tão bonitos, nem tão modernos assim. Apenas mais uma avenida comercial, como em qualquer grande cidade do mundo. Catedral da Sé, Parque do Ibirapuera, tudo mais do mesmo. O MASP sim tem porte para assumir tal posto. Uma construção única e universal na sua proposta, em uma localização perfeita. Mas brochou, graças à sua lamentável administração, e à assombrosa paisagem que tomou conta da vista do térreo. Assim considero as carambolas e melancias de Ruy Ohtake como um sopro de novidade (questões estéticas de lado).

Agora prefeituras e empresas de engenharia nos enfiam goela abaixo o que eles chamam de uma construção única no mundo, como se fosse caramelo para criança. ‘A única ponte estaiada curva dupla do mundo!’ Óoooo! Todos os engenheiros que comentam a obra insistem em ressaltar a dificuldade de se calcular as forças exercidas sobre os estais em pontes curvas, ainda mais no caso da dupla. A Europa, que tem as melhores tecnologias e os melhores projetistas do mundo nesse aspecto, fez algumas poucas e simples. Por que eles nunca pensaram em fazer uma dupla, pergunto eu? Talvez pela grande dificuldade, com péssimo resultado estético e alto custo de obra? Então para que mesmo os brasileiros pernósticos a ponto de quererem fazer a primeira? O mundo deve estar rindo da nossa cara, como nós tão deliberadamente fazemos em relação aos portugueses.

O que mais me incomoda é a facilidade como a população leiga se animou com o monstro X. A falta de repertório faz com que as pessoas achem aquele novelo amarelo bonito, só porque é algo nunca visto. Mas não é preciso ser pós-graduado para perceber que a composição não tem ritmo, esbeltez, harmonia ou ordem. É uma teia de aranha fluorescente com uma grande bigorna Acme no meio. Eu preferia até a divertidíssima ponte-piada do Marcio Kogan. Se ao menos todos tivessem a oportunidade de conhecer as lindas pontes de Sir Norman Foster, ou melhor, as esculturas em forma de harpa do mestre Santiago Calatrava.





Isso sim, pode-se chamar de poesias que cruzam rios. A nossa é apenas mais uma forma frustrada de conter o trânsito cada vez mais enlouquecedor. Terminar o Rodoanel, melhorar o transporte público, acabar com o inchaço urbano… quando será que os projetos urbanos serão mais estratégicos e menos paliativos? Em tempo, quantos quilômetros de metrô se constroem com 260 milhões?

Salve-se quem tiver uma Mecedes!

Tuesday, March 4th, 2008

A revista Casa Vogue pode ser considerada talvez não tão felizmente assim, a melhor publicação mensal atual de arquitetura de interiores do Brasil. Afinal de contas, o mercado editorial do setor se tornou um monstro caquético que junta auto-ajuda-da-decoração com desfiles de projetos ‘jabazentos’ completamente insípidos e deslumbrados com o Alucobond e o vidro (’ainda esse assunto?’ diria João Perassolo). A Casa Vogue talvez seja a única que busca projetos com alguma personalidade no país, apesar de muitas vezes se entregar a modismos auto-inflingidos e babação de ovo para os bambambãs. Pode ser que a culpa seja da arquitetura brasileira em geral, mas isso não vem ao caso.

Todos os anos, a Casa Vogue lança duas edições especiais, uma em janeiro com o ‘melhor’ da decoração, e em fevereiro, o ‘melhor’ da arquitetura nacional. Essas publicações, que se propõem a ser o crème de la crème do assunto, como tudo nas terras americanas do sul, se tornaram um extenso e caro rol de projetos risíveis com espaços comprados a preço de eletrodoméstico de inox. Pouca coisa se salva, e geralmente são os projetos dos convidados, que praticamente prestam um favor à revista em colocar seu trabalho lá.

Tudo isso para dizer que está rolando maior bafafá em torno do projeto publicado na ultima edição de fevereiro pelo grande arquiteto Marcio Kogan,

que não teve dó em colocar seu projeto vencedor de menção honrosa em um concurso no ano passado: LePont Gucci. A proposta era que os concorrentes projetassem uma ponte de ligação entre o eminente Shopping Cidade Jardim e a Daslu, evitando uma pequena favela às margens do Rio Pinheiros. Claro que a história toda era uma gozação com o ’setor de luxo’ que devora o urbanismo de São Paulo, e o aparecimento de um projeto desses numa revista como essa foi a mais saborosa cereja do bolo possível. Até a Vejinha entrou no bate-boca e colocou o arquiteto on the stand.

Muito barulho por nada, porque os revoltadinhos da Grow com essa história são os mesmos que se pudessem não titubeariam em construir alguma das propostas. A nós mortais, e reles usuários de espaços públicos, resta nos divertir com esta e as outras propostas ‘guccíssimas’ apresentadas no concurso, e esperar o Dia do Índio para poder usufruir dessas regalias.