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O retrofit no Brasil

Thursday, September 4th, 2008
projeto de Ramos de Azevedo, retrofit de Paulo Mendes da RochaNo Brasil, a completa inoperância do Governo, associada administrações de patrimônio história extremamente conservadoras e inflexíveis, e um mercado imobiliário voraz, nos fazem engolir ‘Alphavilles’ e ‘Barras da Tijuca’ como futuro para nossas cidades, enquanto os centros de esvaziam e se arruínam, periferias entopem como esgotos, e a classe média se fecha em carros blindados, estacionamentos e muros de condomínios.
O retrofit é hoje uma das disciplinas mais trabalhadas na Europa, que nada mais é do que a requalificação de construções antigas para adequá-las a novos usos e reintegrá-las à vida urbana. Seja para transformá-las em residências, comércio, grandes instituições públicas ou mesmo para mantê-las como marco da cultura e da história, o retrofit pode e deve ser aplicado a boa parte dos edifícios hoje largados às traças e aos cortiços invadidos que dominam a riquíssima paisagem dos centros de São Paulo e Rio de Janeiro.

Existe retrofit no Brasil? Não podemos negar que sim. Temos que admitir que alguns desses projetos foram maravilhosamente executados, como no caso da Pinacoteca de São Paulo nas mãos de Paulo Mendes, ou seu anexo, no antigo prédio do DOPS, importante construção da história do Brasil da ditadura, ou o já clássico projeto da Lina Bo no SESC Pompéia. O Banco do Brasil espalha seus centros culturais pelo país, e em Porto Alegre um hotel foi ‘condecorado’ com esse título. Mas os esforços hoje nesse processo pecam quase sempre em seu objetivo final, fazendo brotar da terra uma infinidade de ‘centros culturais’ que muitas vezes nem objetivo de ser tem. Ou pior, restaura-se o edifício e entrega-se o espaço para usos indefinidos, o que pode acabar com as potencialidades do projeto (vide a Casa das Caldeiras, em São Paulo).

Antigo Hotel Majestic

Centros culturais são sempre bem vindos, e influem positivamente na sinergia urbana do edifício e seus usuários, mas muitas vezes perdemos a chance de interagir diretamente com a arquitetura e inserí-la definitivamente no contexto das nossas vidas. Enquanto na Europa, os edifícios são encarados como espaços a serem utilizados, nós nos prendemos a convenções e questões semânticas e morais antes de propor novos usos aos prédios.

Antigo edifício Alexander McKenzie, onde funcionava a Cia. Light

O retrofit, por aqui, teve alguns pequenos esforços em se livrar das amarras impostas pelo CONDEPHAAT e driblar a estampa perigosa do centro cultural. O Shopping Light, por exemplo, tem uma premissa interessantíssima, mas perdeu-se em um projeto pouco eficiente. Temos hoje em curso na Avenida São João um dos primeiros projetos de retrofit residencial, justo em um edifício do grande Ramos de Azevedo, a espera que uma análise pós-ocupação. Espero que o resultado seja ao menos mais feliz que os inúmeros cinemas nababescos do centro transformados em salas de filmes pornôs deprimentes, ou o cinema do COPAN, fantasiado como uma ofensiva filial da Igreja Universal.

Projeto de Ramos de Azevedo.

Fundação Iberê Camargo de Álvaro Siza

Wednesday, April 9th, 2008

Parece que agora sai. O projeto feito pelo arquiteto português Álvaro Siza para a Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre, que tinha inauguração prevista para 2002, deve ser concluído em maio. O prédio de quatro andares deverá abrigar mais de 4 mil obras do artista morto em 1994, mais um programa extenso que inclui biblioteca, salas de exposições temporárias, café, auditório e mais. O projeto ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza no mesmo ano de 2002.

O prédio às margens do Rio Guaíba é um grande bloco branco misterioso, com poucas e diminutas janelas que parecem posicionadas minuciosamente para admirar paisagens realmente espetaculares. Eu vejo uma mistura da austeridade tão presente no trabalho de Siza com um pouco do brutalismo saído das mãos da ítalo-paulista Lina Bo. Ou talvez o Sesc Pompéia seja uma referência muito próxima e eu não consiga evitar a comparação.

A implantação é um tanto sui generis, em um terreno espremido entre a avenida e um talude, com pouco acesso ao pedestre, resolvido com um sistema complexo de passagens subterrâneas. Com sorte, o projeto terá impacto suficiente para mudar a cara do entorno e trará os gaúchos para a orla do rio. Internamente nada se sabe. Segredo guardado a sete chaves nesse cofre branco.


Com 75 anos, Siza é hoje um dos arquitetos mais renomados em todo o mundo, com mais de 100 obras em 3 continentes e um Pritzker na bagagem, recebido em 1992. A revista Bravo de abril publicou uma pequena entrevista com ele, em que ele mostra toda a serenidade que seus 54 anos de carreira lhe trouxeram. Gosto muito da parte em que ele fala que depois de concluídas ele costuma não voltar às suas obras, pois sabe que ficará frustrado. Só um grande mestre reconhece que mesmo projetos aclamados pela excelência podem e devem sofrer alterações para que não fiquem estanques e acabem datados. Uma aula magna de arquitetura.