O retrofit no Brasil
No Brasil, a completa inoperância do Governo, associada administrações de patrimônio história extremamente conservadoras e inflexíveis, e um mercado imobiliário voraz, nos fazem engolir ‘Alphavilles’ e ‘Barras da Tijuca’ como futuro para nossas cidades, enquanto os centros de esvaziam e se arruínam, periferias entopem como esgotos, e a classe média se fecha em carros blindados, estacionamentos e muros de condomínios.
O retrofit é hoje uma das disciplinas mais trabalhadas na Europa, que nada mais é do que a requalificação de construções antigas para adequá-las a novos usos e reintegrá-las à vida urbana. Seja para transformá-las em residências, comércio, grandes instituições públicas ou mesmo para mantê-las como marco da cultura e da história, o retrofit pode e deve ser aplicado a boa parte dos edifícios hoje largados às traças e aos cortiços invadidos que dominam a riquíssima paisagem dos centros de São Paulo e Rio de Janeiro.
Existe retrofit no Brasil? Não podemos negar que sim. Temos que admitir que alguns desses projetos foram maravilhosamente executados, como no caso da Pinacoteca de São Paulo nas mãos de Paulo Mendes, ou seu anexo, no antigo prédio do DOPS, importante construção da história do Brasil da ditadura, ou o já clássico projeto da Lina Bo no SESC Pompéia. O Banco do Brasil espalha seus centros culturais pelo país, e em Porto Alegre um hotel foi ‘condecorado’ com esse título. Mas os esforços hoje nesse processo pecam quase sempre em seu objetivo final, fazendo brotar da terra uma infinidade de ‘centros culturais’ que muitas vezes nem objetivo de ser tem. Ou pior, restaura-se o edifício e entrega-se o espaço para usos indefinidos, o que pode acabar com as potencialidades do projeto (vide a Casa das Caldeiras, em São Paulo).
Centros culturais são sempre bem vindos, e influem positivamente na sinergia urbana do edifício e seus usuários, mas muitas vezes perdemos a chance de interagir diretamente com a arquitetura e inserí-la definitivamente no contexto das nossas vidas. Enquanto na Europa, os edifícios são encarados como espaços a serem utilizados, nós nos prendemos a convenções e questões semânticas e morais antes de propor novos usos aos prédios.
O retrofit, por aqui, teve alguns pequenos esforços em se livrar das amarras impostas pelo CONDEPHAAT e driblar a estampa perigosa do centro cultural. O Shopping Light, por exemplo, tem uma premissa interessantíssima, mas perdeu-se em um projeto pouco eficiente. Temos hoje em curso na Avenida São João um dos primeiros projetos de retrofit residencial, justo em um edifício do grande Ramos de Azevedo, a espera que uma análise pós-ocupação. Espero que o resultado seja ao menos mais feliz que os inúmeros cinemas nababescos do centro transformados em salas de filmes pornôs deprimentes, ou o cinema do COPAN, fantasiado como uma ofensiva filial da Igreja Universal.
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September 4th, 2008 at 11:54 pm
Olá, gostei muito do seu blog e de sua abordagem.
Parabéns!
Um abraço
September 5th, 2008 at 2:48 pm
Acho essa revitalização importante e necessária, já que nós brasileiros somos acusados de não termos memória, então nada melhor do que restaurar, preservar e reaproveitar.
O único entrave é que a buRRocracia faz com que qq projeto de revitalização demore zilênios, e com isso as chances de que o imóvel a ser recuperado vire ruína são grandes (vide a Hospedaria dos Imigrantes que vc fotografou qd veio aqui uma vez e só agora foi ‘liberada’ pra virar o Museu Pelé, mas até chegar aqui só restaram 2 paredes, ou nem isso…)
Tema bacana Rê, mas faltou uma revisão gráfica no texto pra ficar impecável. Se precisar de ajuda pra isso, ‘pida’
bjSs
September 7th, 2008 at 8:13 pm
Então, o retrofit virou uma tendêêêêência e como por aqui toda tendêêêêência constuma ser mal executada e acompanhada de pouco método [e pouco estudo], o resultado final são bobagens com “licença poética”, vide a sala São Paulo.
Agora, o despejo do Conservatório Dramático e Musical é a maior burrice que a criatividade de meia duzia pode chegar - Ao invés de utilizarmos o dinheiro público para melhorar e promover o que temos, usam dessa “licença poética” afim de justificar a incompetência de certa turminha de arquitetos.