Archive for September, 2008
Tuesday, September 30th, 2008
O empreendedor Ian Schrager é conhecido nos EUA por desenvolver novos conceitos de hotelaria com parcerias como Marriott e Gramercy. Agora ele se aventura também em campo residencial, e seu primeiro e notável trabalho conta com nada menos que Herzog & de Meuron, que fazem seu primeiro projeto em Nova Iorque. A combinação só poderia dar um resultado: luxo cool e exclusividade.
O 40 Bond resgata fórmulas antigas do modernismo e cria um conjunto de apartamentos urbano e contemporâneo, extremamente requintado mas despretensioso. As fachadas livres e os terraços jardins de Le Corbusier, as volumetrias em lâminas, as misturas de tipologias, está tudo lá. Mas a releitura da dupla suiça confere um ar de hotel cinco estrelas para o projeto. A própria solução estrutural é uma interpretação dos métodos tradicionais novaiorquinos de usar estruturas metálicas com grelhas de concreto no perímetro, liberando os interiores de pilares e vigas.



Dois formatos residencias se combinam para atender às 28 unidades solicitadas pelo contratante: 5 sobrados ocupam o térreo, aos que se sobrepõe as 23 unidades de apartamentos convencionais, com tamanhos e tipologias variados. Os sobrados têm todos um quintal próprio ao fundo e um jardim na frente, de face com a rua. Para protegê-los, foi criado um enorme e extraordinário portão escultural de alumínio, inspirado em graffitis.



A textura dos portões rege também os acabamentos de todo o interior do edifício. Paredes sinuosas de gesso, balcões e portas de madeira, forros de inox (incríveis!!!) e pisos de banheiros recebem os mesmo traços livres e criam uma linguagem elaborada, leve e muito sofisticada a todas as unidades. Em contraponto, grandes paredes curvas de superfícies lisas e alvas desenham o espaço com silêncio.



Os apartamentos do 40 Bond seguem a linha loft, com grandes espaços abertos iluminados por painéis de vidro generosos. Os espaços podem ser redivididos por painéis corrediços piso-teto que se incorporam ao mobiliário fixo, desenhado inteiramente pelos arquitetos. É surpreendente ver que uma obra tão modernista conceitualmente possa receber um espírito tão contemporâneo e acolhedor.


Interessou? Então corre, porque só tem mais um apartamento à venda.
Tags: 40 bond, escultura, estrutura metálica, exclusividade, fachada livre, graffiti, gramercy, herzog & de meuron, hotel, ian schrager, lâmina, le corbusier, loft, luxo, marriott, nova iorque, portão, residencial, terraço jardim, textura, tipologia
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Wednesday, September 17th, 2008
Seguindo a tendências das ‘novas máquinas de morar‘, a marca de café italiana Illy levou a compartimentação e a automação para o âmbito comercial. Com a ajuda do arquiteto e artista Adam Kalkin, a companhia adaptou um contâiner de transporte marítimo em um café transportável completo, com direito a barista e tudo.




Em apenas 90 segundos, as faces laterais do contâiner se desdobram para mostrar um interior impecável em forma de uma reinterpretação de uma residência de 5 cômodos, com cozinha, quarto, sala, biblioteca e banheiro. O mecanismo que controla toda a ação das paredes é centralizado em um interruptor simples, que acabou por nomear o projeto: Push-Button-House.

Por enquanto, o projeto só foi apresentado na Bienal de Veneza de 2007 e no Time Warner Center, em Nova Iorque. Não há confirmação de que os café móveis serão fabricados em série, mas espero que não só a Illy leve o projeto adiante, mas que ele seja desenvolvido por outras empresas. Imagina um bar da Absolut na porta da tua casa?
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Tags: absolut, adam kalkin, automação, bienal de veneza, café, compatimentação, container, ice bar, illy, maquina de morar, nova iorque, push-button-house, time warner
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Thursday, September 11th, 2008
Tóquio é sinônimo de overdose de propaganda luminosa. É impossível não imaginar a capital janponesa como uma cidade inteira de ‘Times Squares’ e ‘Piccadilly Circuses’. Então, quando uma marca poderosa como a Armani resolve desembarcar por lá, não pode haver ponto sem nó. Sabendo disso, o gigante da moda apostou no refinado trabalho de Doriana e Massimiliano Fuksas.
Localizado no bairro chique de Ginza, o prédio de 12 andares proposto pela dupla italiana concorre com a poluição visual do entorno e da concorrente vizinha Dior com uma boa dose de tecnologia e muita elegância. Ao invés de um outdoor, a marca permeia um bosque de bambus dourados gigantes, com folhas luminosas feitas de Plexiglas, e acesas com LEDs sobre uma pele de vidro negra.
As folhas de bambu se espalham também pelo piso das áreas de convivência e em divisórias metálicas recortadas a laser. O departamento ‘Giorgio Armani’ é todo dividido em salottini, saletas separadas por painéis de vidro semi-espelhados e telas metálicas platinadas. Os bambus dourados permeiam as paredes perimetrais e servem de suporte para pateleiras e mostruários transparentes, contrastando com pisos e forros pretos. Já o departamento ‘Emporio Armani’ é totalmente tingido de preto e ressalta a luz vinda de trás dos painéis metálicos recortados com finas tiras e logos da marca. A arquitetura se resveste de moda: transparências, texturas, uso preciso de materiais e uma cartela de cores restrita e cuidadosa.



Não posso evitar a comparação com o fantástico edifício da Tod’s Omotesando, também em Tóquio, do arquiteto japonês Toyo Ito. Lá, as referências naturais oferecem uma solução estrutural originalíssima e totalmente poética. Aqui, os elementos orgânicos se aplicam apenas a características estéticas e estilísticas, mas o resultado em termos de afirmação da marca é forte e eficiente. Este é um ótimo exemplo para acabar com a ditadura das flagships alvejadas de branco como hospitais.




O projeto você pode ver aqui.
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Tags: armani, dior, flagship, fuksas, ginza, laser, led, loja, marca, natureza, outdoor, plexiglas, poluiçao visual, textura, tods, toquio, toyo ito, transparencia
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Monday, September 8th, 2008
A arquitetura foi, desde as primeiras grandes civilizações, a arte máxima do espaço, a transformação de áreas de culto aos deuses em majestosos templos e de enormes residências de nobres em suntuosos palácios. Uma arte aplicada ao meio. O modernismo marcou a primeira metade do século XX pela transformação da arquitetura em uma arte associada a uma ciência. Os arquitetos jogavam utopias sobre o ser humano em uma tentativa vã de dobrá-la aos seus ideais, criando novas realidades. O pós-modernismo veio corrigir a hierarquia do trabalho, fazendo os arquitetos subjugarem seu trabalho ao entendimento dos sistemas de relações interpessoais e urbanos, construindo em função do seu usuário.
Um dos maiores desafios da arquitetura contemporânea já não tem a ver com o objetivo final, que é a população. Tem sim que lidar com o material extremamente heterogêneo que a história oferece, e que mais do que nunca pediu soluções emergenciais. Cidades inchadas, sufocadas em seus próprios terrenos, tendendo à decadência e ao colapso urbano. Nova Iorque, por exemplo, fechada em suas ilhas, não tem saída a não ser alguns fenômenos de revitalização como o do tão falado Meat Packing District, catapultado ao status de hype a partir de ações físicas efetivas e uma ajudinha de marketing por quatro novaiorquinas promíscuas de uma série de TV.
Dois projetos muito similares mostram como o patrimônio histórico é tratado como um artigo vivo no mundo, e não como peça de museu.
O primeiro projeto é da livraria El Ateneo, localizada em plena Avenida Santa Fé, em Buenos Aires, de autoria de Fernando Manzone. O edifício construído há mais de um século no moldes nos nossos teatros municipais abrigava espetáculos musicais. Seus camarotes deram lugar a seções especiais e lounges de leitura, seu vão livre recebeu escadas rolantes e o subsolo hoje comporta um auditório para 200 pessoas e um playground literário para o público infantil. O programa ainda tem área de exposição e comercialização de arte, salas de internet e café.



Com a mesma proposta de livraria, mais em condições ainda mais ousadas, o grupo BGN e o governo da cidade de Maastricht se uniram para revitalizar uma igreja dominicana pertencente a uma congregação religiosa entre 1360 e 1794. O estúdio Merck+Girod, autor do projeto, não quis interferir nos incríveis vitrais e nas vertiginosas arcadas ogivais do templo, e preferiu construir a livraria Selexyz em uma estrutura independente que não interferisse nas perspectivas da igreja e ainda dobrasse a área comercial, a pedido do cliente.




A solução foi uma gigantesca estante de livros de três andares, circundada por passarelas e escadas que tomam apenas uma lateral da nave central. A área do altar recebeu um café da grife Coffeelovers e uma enorme mesa de leitura em forma de cruz. Convenhamos, você compraria seus livros em um shopping center se tivesse uma igreja gótica ao seu dispor?
Fotos de mais livrarias e bibliotecas incríveis pelo mundo eu achei aqui e aqui.
Tags: arte, bgn, buenos aires, ciência, coffeelovers, culto, dominicano, el ateneo, fernando manzone, historia, igreja, livraria, maastricht, meat packing district, merck+girod, modernismo, nova yorque, patrimônio, pos-modernismo, retrofit, selexyz, sex and the city, teatro, utopia
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Thursday, September 4th, 2008
No Brasil, a completa inoperância do Governo, associada administrações de patrimônio história extremamente conservadoras e inflexíveis, e um mercado imobiliário voraz, nos fazem engolir ‘Alphavilles’ e ‘Barras da Tijuca’ como futuro para nossas cidades, enquanto os centros de esvaziam e se arruínam, periferias entopem como esgotos, e a classe média se fecha em carros blindados, estacionamentos e muros de condomínios.
O retrofit é hoje uma das disciplinas mais trabalhadas na Europa, que nada mais é do que a requalificação de construções antigas para adequá-las a novos usos e reintegrá-las à vida urbana. Seja para transformá-las em residências, comércio, grandes instituições públicas ou mesmo para mantê-las como marco da cultura e da história, o retrofit pode e deve ser aplicado a boa parte dos edifícios hoje largados às traças e aos cortiços invadidos que dominam a riquíssima paisagem dos centros de São Paulo e Rio de Janeiro.


Existe retrofit no Brasil? Não podemos negar que sim. Temos que admitir que alguns desses projetos foram maravilhosamente executados, como no caso da Pinacoteca de São Paulo nas mãos de Paulo Mendes, ou seu anexo, no antigo prédio do DOPS, importante construção da história do Brasil da ditadura, ou o já clássico projeto da Lina Bo no SESC Pompéia. O Banco do Brasil espalha seus centros culturais pelo país, e em Porto Alegre um hotel foi ‘condecorado’ com esse título. Mas os esforços hoje nesse processo pecam quase sempre em seu objetivo final, fazendo brotar da terra uma infinidade de ‘centros culturais’ que muitas vezes nem objetivo de ser tem. Ou pior, restaura-se o edifício e entrega-se o espaço para usos indefinidos, o que pode acabar com as potencialidades do projeto (vide a Casa das Caldeiras, em São Paulo).


Centros culturais são sempre bem vindos, e influem positivamente na sinergia urbana do edifício e seus usuários, mas muitas vezes perdemos a chance de interagir diretamente com a arquitetura e inserí-la definitivamente no contexto das nossas vidas. Enquanto na Europa, os edifícios são encarados como espaços a serem utilizados, nós nos prendemos a convenções e questões semânticas e morais antes de propor novos usos aos prédios.


O retrofit, por aqui, teve alguns pequenos esforços em se livrar das amarras impostas pelo CONDEPHAAT e driblar a estampa perigosa do centro cultural. O Shopping Light, por exemplo, tem uma premissa interessantíssima, mas perdeu-se em um projeto pouco eficiente. Temos hoje em curso na Avenida São João um dos primeiros projetos de retrofit residencial, justo em um edifício do grande Ramos de Azevedo, a espera que uma análise pós-ocupação. Espero que o resultado seja ao menos mais feliz que os inúmeros cinemas nababescos do centro transformados em salas de filmes pornôs deprimentes, ou o cinema do COPAN, fantasiado como uma ofensiva filial da Igreja Universal.

Tags: alphaville, banco do brasil, casa das caldeiras, casa de cultura mario quintana, centro, centro cultural, cinema, condephaat, copan, dops, europa, historia, igreja universal, lina bo bardi, paulo mendes da rocha, pinacoteca, porto alegre, ramos de azevedo, reintegração, retrofit, revitalização, são joão, sesc, shopping light, tombado, urbanismo
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