Archive for July, 2008
SGAE em Santiago de Compostela, de Ensamble Studio
Friday, July 25th, 2008
Em 1995, uma família de banqueiros doou um parque para a sociedade espanhola, e a partir de um masterplan de Arata Isozaki & Associates, a área está se tornando um grande polo de cultura da cidade de Santiago de Compostela. Depois do centro de estudos internacionais e da escola de música da Universidade de Santiago de Compostela, acaba de tomar forma o inspirado projeto da SGAE (Sociedad General de Autores y Editores), que cuida da propriedade intelectual de diretores, roteiristas, escritores, compositores e coreógrafos do país.
O projeto do Ensamble Studio, posiciona a sede da SGAE de forma que sua frente olhe para o Parque Vista Alegre, e suas costas abracem a curva de uma movimentada avenida. A longa fachada principal é formada por uma escultura de blocos e restos de granito cortado na região, e dispostos despretensiosamente, de modo que o próprio peso das pedras forma estrutura, fechamento e textura. Alguns cabos de aço oferecem segurança ao conjunto, mas o arquiteto Antón García-Abril insiste que a estabilidade é fruto meramente da força da gravidade.
A escultura é um dos lados de um enorme corredor, fechado em seu outro lado por uma fascinante muralha de caixas plásticas de CDs e DVDs, em uma ‘ode à era digital’. Esta parede é iluminada à noite por trás com LEDs que variam de cor infinitamente. Vista do parque, a fachada multicolorida faz referência aos vitrais das catedrais góticas, emoldurados pelo peso do granito. Em um centro de peregrinação tão importante no mundo, a metáfora é forte.
O interior do prédio não deixa de ser surpreendente, em destaque para o uso dos materiais. O programa é divido em quatro blocos, que conversam através de elementos arquitetônicos intrigantes. A ‘administração’ é fechada por paredes de vidro translúcido, oferecendo uma iluminação branca suave e uniforme e a noite fica suscetível aos intercâmbios cromáticos do corredor de entrada. O andar de se divide em ‘educacional’ e ‘difusão cultural’ tem paredes onduladas, concretadas entre toras de pinus e eucaliptos alinhadas e depois retiradas. A iluminação marcada oferece um tom ainda mais dramático ao espaço. Essas mesma toras cobrem as paredes dos laboratórios de informática da área ‘pública’.
A descoberta do projeto se faz ainda mais instigante pelo contraste formado com a fachada posterior, voltada para a cidade, que mistura sobriamente o vidro laminado com tradicionais painéis de pedra e chapas de aço.
PS: Infelizmente achei pouquíssimas fotos o projeto pronto. As poucas boas que achei foram aqui, aqui e aqui. Se eu achar mais eu publico e aviso.
MVRDV, a Holanda de vanguarda
Wednesday, July 23rd, 2008
A arquitetura holandesa do século XIX briga por centímetros de nariz com a espanhola pelo pódio, mas elas concorrem com trunfos diferentes. Enquanto a ibérica se esmera em plásticas poéticas e grandiloqüência lúdica, os Países Baixos apresentam as soluções mais inovadoras em questões teóricas, urbanísticas e antropológicas. Talvez a condição territorial tenha forçado o estudo precoce de projeto sobre uma natureza fabricada, e só agora o resto do mundo entenda o que é habitar um mundo em colapso.
O escritório MVRDV, sediado em Rotterdam e formado pelos arquitetos Winy Maas, Jacob van Rijs e Nathalie de Vries, é um dos mais expressivos e prováveis grandes sucessores do incansável Rem Koolhaas, um dos maiores críticos do urbanismo pós-moderno. Não à toa, os dois sócios colaboraram com Koolhaas nos anos 80 no OMA (Office for Metropolitan Architecture), enquanto Nathalie trabalhou no escritório Mecanoo.
Com uma arquitetura singular, analítica e metodológica, busca uma posição fora do campo da arquitetura, intervindo socialmente e ecologicamente no meio. A estética resultante, sejamos sinceros, é complexa e muitas vezes polêmica. Mas a provocação visual intrínseca às suas teorias são sempre fortes armas de posicionamento frente às discussões por elas geradas.
Formado em 1991, o trio ganhou notoriedade pelo projeto do pavilhão holandês na Expo 2000 em Hannover. Uma torre de paisagens empilhadas (campos de tulipas, dunas, florestas, um lago e moinhos de vento no topo) discutia a auto-suficiência de recursos naturais em áreas compactas e populosas, bem antes das recorrentes manchetes alarmistas de aquecimento global.
A obra deles ganhou notoriedade e se espalhou pelo mundo. Projetos como os vertiginosos apartamentos do asilo WoZoCo em Amsterdam, intrigam e instigam o observador a conhecer de perto. Os edifícios residenciais Mirador, em Madrid e Silodam, também em Amsterdam, propõem novas tipologias de adensamento. O projeto de casas em uma encosta em Liuzhou, na China, coloca a habitação como forma de conter a erosão do solo (favelas ecológicas?). E o corrente anexo do Cleveland Institute of Art serpenteia-se ironicamente sobre o edifício original careta.
Cidade do medo
Monday, July 21st, 2008
Ontem arrombaram meu carro. Estacionei em frente a um shopping-center movimentado por 10 minutos necessários para se comprar um ingresso de cinema e voltei a tempo de ver 4 adolescentes fechando as portas e indo embora. Não levaram nada, porque nada havia para se roubar.
Hoje recebo a revista Trip de julho (#168), e o tema da edição é MEDO. Curioso foi perceber que uma boa parte da revista trata de arquitetura e urbanismo, pois curiosamente estas são as áreas onde o medo mais fica latente. ‘As cidades contemporâneas, instaladas sob o signo do medo, são imensas massas construídas com quase nenhuma arquitetura. Gradeamos praças, nos isolamos em muros altíssimos em nossas casas e trancamos nosso olhar em janelas que não se abrem ao vento.’ escreve Ciro Pirondi, diretor da Escola da Cidade.
Moro em um prédio dos anos 50, e o primeiro comentário de 100% das minhas visitas é sobre as enormes janelas que trazem a cidade para dentro da minha sala. Muitas delas não percebem que o choque ao ver minha fachada quase corbusiana acontece exatamente porque elas se acostumaram a viver em bunkers mal-iluminados, com aberturas mínimas obrigatórias pelo Código de Obras. Elas não entendem que gostam de jantar no Spot, não porque a comida é boa, mas porque o restaurante se abre para um gigantesco espaço vazio em plena Avenida Paulista.
O pintor trabalha a imagem, o escultor trabalha o volume. O arquiteto tem como matéria-prima o vazio. É no vazio que entram os raios de sol, a brisa da manhã, o barulho dos pássaros. Nos bunkers que mercado imobiliário chama de condomínios só entra a alienação, a segregação e a asfixia. As pessoas saem blindadas de suas casas diretamente para outras garagens. Seu contato com a cidade é protegido pelo insulfim. A vida é um grande estacionamento.
A negação do espaço público não é exclusividade dos bem-nascidos. As periferias há muito deixaram de ter a cara de ‘cidade do interior’ e também aderiram aos muros com lanças no topo, grades e arame farpado. A rua é terra de ninguém. A arquitetura hoje usa elementos medievais de proteção: muralhas, fossos, torres de vigia e trincheiras.
Em 1961, Jane Jacobs escreveu o tratado ‘Morte e Vida nas Grandes Cidades‘. Hoje o livro é tido como ultrapassado, mas é surpreendente perceber que há 40 anos já se delineava uma situação que hoje passou do controle. Ela pregava a zeladoria da própria sociedade como a forma mais eficaz de manutenção da segurança e da democracia nas ruas. Em tempos de individualismo patológico, o carro é arrombado no meio de dezenas de pessoas e nenhuma delas esboça reação.
Na carta de Ricardo Guimarães, presidente da Thymus Branding, que encerra a edição da revista, levanta-se a questão de que uma empresa pode desmoronar mesmo se todas as áreas são totalmente eficientes, mas existe problemas entre as áreas. A cidade não é um mero aglomerado de lotes, e sim a malha pública que une a todos eles. Na hora em que nos encarceiramos em nossos próprios umbigos, a rua vira zona de guerra: o mais forte leva, e nós a estamos perdendo.
Ricardo sugere que ‘baixemos os muros até o ponto que dê para ver a rua e o vizinho. Assim, um cuida do outro e todos do que é comum. Quem sabe, com muros mais baixos, a gente veja o ladrão antes de ele invadir nossa casa ou até mesmo antes de ele ter alguma razão para virar ladrão.’ Talvez um pouco da mesquinhez com a vida alheia que vemos em Wisteria Lane seja saudável. Jane Jacobs nunca esteve tão certa.
Novo Museu da Acrópole em Atenas, de Bernard Tschumi
Tuesday, July 15th, 2008
O arquiteto Bernard Tschumi é mais conhecido pelos seus livros e seus ensaios sobre arquitetura do que por seus projetos em si. O mais expressivo deles até hoje talvez seja Parc de La Villette, a nordeste de Paris, com seu mosaico de cubos vermelho-sangue espalhados pelo verde. Agora ele volta a figurar a mídia especializada por um projeto um tanto controverso, não formalmente, mas em sua essência: o Novo Museu da Acrópole, em Atenas.
O museu em si é parte de uma grande briga diplomática entre Grécia e Inglaterra, já que grande parte do seu acervo é formado pelos Mármores de Elgin, ornamentos do Parthenon original, metade dos quais em exposição até pouco tempo no British Museum. Além disso, o museu foi construído a cerca de 300 metros da própria Acrópole, em um importantíssimo sítio arqueológico. Por último, o museu se conecta com uma as mais aclamadas e influentes obras da humanidade.
O grande volume de vidro resultante olha diretamente para a Acrópole, permitindo a vista do Parthenon pelos visitantes do museu. O uso de pilotis é justificado pela mínima interferência no terreno, liberando as áreas de escavações ainda ativas e visíveis sob o chão de vidro do museu. As galerias internas são dispostas de forma que os objetos sejam expostos em ordem, formando uma grande história, e não de forma aleatória como estavam no museu inglês.
Tschumi define o museu como um ‘anti-Bilbao’ por se tratar de um projeto contextualizado em seu sítio, nascido de uma coleção de arte, e não de seu container. Conta que fez uso de apenas três matérias – vidro, aço e mármore – com objetivo de expressar pureza e simplicidade, e evidenciar a matemática rígida aplicada ao desenho, como faziam os gregos de então.
Mais fotos incríveis eu encontrei neste flickr.




































































