A mais nova publicação da editora Phaidon a respeito do papa do modernismo Le Corbusier é praticamente uma bíblia. As más línguas andam dizendo que estão vendendo o arquiteto suiço por quilo, devido aos absurdos 9kg desta edição. É um livro grande demais para por na estante, pesado demais para levar para a cama, desajeitado demais para sequer manuseá-lo sem uma sólida superfície de apoio. É um livro de puro fetiche, daqueles que se deixa desbotar ao longo dos anos sobre a mesa de centro, cintilando em posição de destaque na decoração.
Críticos mais rigorosos torceram o nariz pois acharam que o livro deixa a desejar em comparação a outras publicações mais ‘academicamente biográficas’, mas esta vem chamando atenção por revelar detalhes do homem atrás do mito, oferecendo um certo grau de intimidade com o gênio. Sua relação com as mulheres, por exemplo, foi sempre intensa e por vezes desgastante. Sua mãe, por acaso, demorou muito a se convencer da relevância do trabalho do filho para o mundo. Passagens como esta são permeadas por gigantescas imagens de desenhos de nus do arquiteto.
E é no quesito imagens em que o livro se sai mais louvado. A edição nada sutil deslumbra os olhos com 768 páginas cheias de fotos, projetos, gravuras, croquis e todo tipo de arquivo imagético que ilustram o criador endeusado e o homem problemático, em seus 78 anos de vida. E como estamos já quase em dezembro, deixo aqui a dica para quem quiser me fazer um agrado de Natal, ok?
Há uns dois meses eu escrevi sobre o lançamento do livro ‘Artacho Jurado – Arquitetura Proibida‘, do professor Ruy Debs. Graças a esse post, e a alguns acasos do destino, acabei por conhecer a Mari Nobre, do blog Flânerie. Além de querida, ela ainda mora no Edifício Planalto, do próprio, e está envolvida na organização de uma palestra sobre o arquiteto com o autor do livro.
A palestra, se não houver mudanças no meio do caminho, será na cobertura do prédio, no dia 24 de setembro às 20hs. Ainda está muito cedo, mas já já eu coloco aqui um convite eletrônico com as infos para se inscrever. Mas, quem for muito apressadinho, pode entrar no blog da Mari para conversar com ela, ou ver as fotos da festa FlickrNight, que aconteceu neste mesmo salão e tem fotos incríveis não só da arquitetura, mas da vista deslumbrante lá de cima.
Se eu souber de mais alguma coisa, eu aviso.
PS: Vida de arquiteto não é fácil, ainda mais depois de julho. Vou tentar não ficar tanto tempo sem escrever, prometo.
PS2: A foto é do Leonardo Tura, que além de amigo, é um fotógrafo de mão cheia e mora num apartamento deslumbrante em um prédio do Artacho, mas não vou contar qual. Dá uma olhada no Flickr dele e tenta descobrir.
O jornalista Daniel Piza escreveu uma coluna no jornal de hoje no caderno de esportes do Estado de São Paulo falando sobre a nova arquitetura chinesa como o grande vencedor a priori dos Jogos Olímpicos de Pequim. Ele cita 5 obras grandiosas como expoentes de uma nova estética arquitetônica. São elas: o Estádio Nacional de Herzog & de Meuron, o WaterCube de PTW Architects, a nova sede da rede estatal CCTV de Rem Koolhaas, o Grande Teatro Nacional do francês Paul Andreu e o terminal 3 do Aeroporto de Pequim, projetado por sir Norman Foster.
100% ocidental, é verdade, mas inteiramente concretizada no Oriente. Parece que nós do oeste cansamos de tentar inovar e nos conformamos com fórmulas prontas. Os chineses, ávidos por novidades que a abertura de mercado trouxe ao país, cada vez mais bancam os projetos mais mirabolantes e interessantes da atualidade.
Ontem arrombaram meu carro. Estacionei em frente a um shopping-center movimentado por 10 minutos necessários para se comprar um ingresso de cinema e voltei a tempo de ver 4 adolescentes fechando as portas e indo embora. Não levaram nada, porque nada havia para se roubar.
Hoje recebo a revista Trip de julho (#168), e o tema da edição é MEDO. Curioso foi perceber que uma boa parte da revista trata de arquitetura e urbanismo, pois curiosamente estas são as áreas onde o medo mais fica latente. ‘As cidades contemporâneas, instaladas sob o signo do medo, são imensas massas construídas com quase nenhuma arquitetura. Gradeamos praças, nos isolamos em muros altíssimos em nossas casas e trancamos nosso olhar em janelas que não se abrem ao vento.’ escreve Ciro Pirondi, diretor da Escola da Cidade.
Moro em um prédio dos anos 50, e o primeiro comentário de 100% das minhas visitas é sobre as enormes janelas que trazem a cidade para dentro da minha sala. Muitas delas não percebem que o choque ao ver minha fachada quase corbusiana acontece exatamente porque elas se acostumaram a viver em bunkers mal-iluminados, com aberturas mínimas obrigatórias pelo Código de Obras. Elas não entendem que gostam de jantar no Spot, não porque a comida é boa, mas porque o restaurante se abre para um gigantesco espaço vazio em plena Avenida Paulista.
O pintor trabalha a imagem, o escultor trabalha o volume. O arquiteto tem como matéria-prima o vazio. É no vazio que entram os raios de sol, a brisa da manhã, o barulho dos pássaros. Nos bunkers que mercado imobiliário chama de condomínios só entra a alienação, a segregação e a asfixia. As pessoas saem blindadas de suas casas diretamente para outras garagens. Seu contato com a cidade é protegido pelo insulfim. A vida é um grande estacionamento.
A negação do espaço público não é exclusividade dos bem-nascidos. As periferias há muito deixaram de ter a cara de ‘cidade do interior’ e também aderiram aos muros com lanças no topo, grades e arame farpado. A rua é terra de ninguém. A arquitetura hoje usa elementos medievais de proteção: muralhas, fossos, torres de vigia e trincheiras.
Em 1961, Jane Jacobs escreveu o tratado ‘Morte e Vida nas Grandes Cidades‘. Hoje o livro é tido como ultrapassado, mas é surpreendente perceber que há 40 anos já se delineava uma situação que hoje passou do controle. Ela pregava a zeladoria da própria sociedade como a forma mais eficaz de manutenção da segurança e da democracia nas ruas. Em tempos de individualismo patológico, o carro é arrombado no meio de dezenas de pessoas e nenhuma delas esboça reação.
Na carta de Ricardo Guimarães, presidente da Thymus Branding, que encerra a edição da revista, levanta-se a questão de que uma empresa pode desmoronar mesmo se todas as áreas são totalmente eficientes, mas existe problemas entre as áreas. A cidade não é um mero aglomerado de lotes, e sim a malha pública que une a todos eles. Na hora em que nos encarceiramos em nossos próprios umbigos, a rua vira zona de guerra: o mais forte leva, e nós a estamos perdendo.
Ricardo sugere que ‘baixemos os muros até o ponto que dê para ver a rua e o vizinho. Assim, um cuida do outro e todos do que é comum. Quem sabe, com muros mais baixos, a gente veja o ladrão antes de ele invadir nossa casa ou até mesmo antes de ele ter alguma razão para virar ladrão.’ Talvez um pouco da mesquinhez com a vida alheia que vemos em Wisteria Lane seja saudável. Jane Jacobs nunca esteve tão certa.
Andei falando sobre os protótipos de casa que surgiram no século XX com uma onda futurista, de gente que queria salvar o mundo com a arquitetura, e lá citei a Casa Bola, do Eduardo Longo.
Eu estive na casa para entrevistar o Eduardo quando eu estava ainda na faculdade, então posso dizer que ela não está tão conservadinha quanto parece, não é tão aconchegante e espaçosa quanto pintam, e ele não mora (e acho que nunca morou) lá. Mas a experiência de visitá-la é realmente fascinante, e sim, eu desci no escorregador. Então, para quem quiser dar uma olhada no interior dela, tem esse video de uma TV inglesa no Youtube.
Acontece amanhã, dia 19 de maio, o lançamento do livro ‘Artacho Jurado – Arquitetura Proibida’ de Ruy Eduardo Debs Franco, na Saraiva do ex-Shopping Paulista, às 19hs.Para quem não sabe, Artacho Jurado foi um empreiteiro que, nas décadas de 30 e 40, driblou todo o elitismo do CREA junto aos arquitetos para espalhar pela São Paulo cinzenta edifícios residenciais lindos, coloridos e hoje em dia disputadíssimos.
Por não ter formação ou licença para assinar projetos, Artacho sempre fez uso da assinatura de terceiros para pôr de pé o que ele acreditava que faltava na cidade. São prédios revestidos de cima a baixo com pastilhas coloridas, em sua maioria rosa, com plantas de excelente dsitribuição, unindo o que havia de mais interessante do modernismo com a art nouveau e deco.Foi ele também que adicionou aos projetos residenciais as áreas comuns, hoje tão caras ao mercado imobiliário. Lançando teorias sobre o lazer comunitário, ele sempre incluía em seus projetos jardins, piscinas, saunas, bares e salões de festas. Caso típico é aquele imenso bloco envidraçado sobre o Edifício Viadutos no final da Av. Xavier de Toledo, que muitos compraram a uma nave espacial.
Com uma arquitetura extremamente formalista, que contorcias as leis modernistas de Le Corbusier, e atuando numa área super regimentada, Artacho foi desprezado pela crítica e sofreu represálias de arquitetos renomados, que o excluíram da história da arquitetura da época.
Recentemente, um movimento de valorização do vintage, que acometeu também o mercado imobiliário, fez com que suas obras voltassem a figurar entre as construções mais valorizadas da cidade. Além do Viadutos, temos outros edifícios muito conservados e conhecidos, como o Cinderela, na Rua Maranhão, o Louvre, na Av. São Luis, o Bretagne, na Av. Higienópolis e o Verde Mar, na orla de Santos.
Apenas mais uma curiosidade: a revista hype inglesa Wallpaper considerou o Edifício Bretagne um dos melhores para se viver no mundo.
(A primeira foto é do Ed. Louvre, e é minha. A segunda e a terceira são o Viadutos e o Bretagne, são do Claudio Zeiger e foram tiradas daqui. A última é o Verde Mar e foi tirada daqui. Mais fotos podem ser vistas aqui.)
contra o neo-classicismo
contra os muros e grades,
contra o mercado imobiliário,
contra os carros blindados,
contra o puxadinho e o barraco,
contra o carpete de madeira,
contra janelas mínimas,
contra trânsito e corredores de ônibus,
contra o porcelanato na sala,
contra o (não)urbanismo caótico,
contra maisons, palazzos e residentials,
contra o condomínio,
contra o subúrbio e a periferia,
contra o mau-gosto e a burrice,
contra a falta de cultura,
por uma boa arquitetura