Archive for the ‘arquitetura no brasil’ Category

Um H&dM em São Paulo?

Monday, December 15th, 2008
Na semana passada, a equipe do escritório de Herzog & de Meuron deixou o Brasil, levando todos os dados e levantamentos necessários para o projeto do Teatro de Ópera e Dança de São Paulo. O projeto deve ser entregue em março, com início das obras previstas para julho, com término no final de 2010. Veremos.
Os arquitetos suiços (que eu já falei muita coisa que fizeram) foram os escolhidos pela Secretaria da Cultura, que tinham como opções nomes de peso como o OMA, Norman Foster e Cesar Pelli. Entretanto, a dupla vai ter que adequar seu projeto a uma série de especificações técnicas da empresa inglesa Theatre Projects Consultants, especialista na construção de teatros. Para nós soa até estranho que um órgão público esteja mais preocupado com a qualidade da construção do que a mídia a que ela vai servir, ?
O teatro vai ocupar o quarteirão em frente à Sala São Paulo, onde antes ficava a rodoviária da cidade, e hoje é ocupado por um pseudo-shopping de gosto duvidoso. Por enquanto, só notícia boa. Um teatro novo, com um projeto fodástico, em área de grande potencial de revitalização, e acabando com a feiúra existente.

Mas nem tudo está correndo com tranqüilidade. Primeiro, pressionado pela opinião pública, o IAB solicitou explicações a respeito da contratação do escritório suiço, alegando que o processo de escolha é nebuloso e que pode ter havido negociações ilegais. Segundo, muito está se discutindo sobre a comissão oferecida aos arquitetos, que varia de 6,5 a 8,5% do valor da obra. Considerando-se que o orçamento para o teatro é de R$300 milhões, tem muita gente achando absurdo eles ganharem pelo menos R$19 milhões por um ’simples projeto’. E terceiro e inevitável, é o bairrismo brasileiro que não se conforma com a não inlcusão de nomes brasileiros entre os concorrentes.
Se a contratação é irregular ou não, já sabemos que nunca vamos descobrir, e vamos contar com o IAB, que sempre foi uma instituição muito responsável, para manter o mínimo de controle sobre o assunto. Agora, é inacreditável que o brasileiro ainda ache que projeto é apenas um desenho e que não precisa pagar por isso. Quando é uma ponte horrorosa que não serve para nada, tudo bem, mas quando é um equipamento de cultura…. Fora isso, Niemeyer pode construir em Paris, Paulo Mendes em Lisboa, e aqui não pode ter estrangeiro trabalhando? Nem preciso dizer o quanto a paisagem chinesa se modificou com a interferência internacional, e nós claramente não estamos dando conta da nossa. Então por que não tentar? Eu estou esperando ansiosamente.

Oscar Niemeyer, a controvérsia e a inspiração

Tuesday, December 9th, 2008
Sempre que alguém pouco escolado em arquitetura resolve discutir o assunto, o tema inevitavelmente recai sobre o mais conhecido arquiteto brasileiro, Oscar Niemeyer, e eu não consigo evitar de suspirar de preguiça. Não por esnobismo ou prepotência, mas sim porque já cansei de tentar explicar o que Niemeyer representa para arquitetura para pessoas que não eram capazes de citar mais um único nome de arquiteto famoso. E, sejamos francos, mesmo entre as rodas acadêmicas mais elaboradas o assunto é sempre controverso.
Apesar de este tema ser sempre tratado no melhor estilo ‘Ame-o ou deixe-o’, a obra de Niemeyer é muito inconstante para o homem seja sumariamente julgado por seu todo. E os argumentos da oposição são sempre simplistas, para não dizer imbecis. ‘A arquitetura dele é fria’, ‘é um mar de concreto’, fora o incansável argumento de que ‘é fácil ser um comunista com uma cobertura voltada para Copacabana’. Eu desisti de comprar essa briga, e sempre que me perguntam se gosto do trabalho dele, eu indico o excelente ensaio do Daniel Piza para o Estado de São Paulo.
Amando-o ou não, Oscar Niemeyer é uma das personalidades brasileiras mais conhecidas em todo o mundo e o trabalho dele tem algo de tão único e original em escala global que é impossível de se negar sua genialidade. Todos seus louros são merecidos, e não à toa sua obra é repetidas vezes fonte de inspiração para tantas outras áreas de criação.
Em comemoração aos seu aniversário de 101 anos, em 15 de dezembro próximo, a joalheria brasileira H.Stern está lançando uma coleção inteira baseada não na arquitetura, mas nos croquis do mestre. Também para este lançamento, Carlinhos Brown e George Israel compuseram a canção ‘Linhameyer’, e com ela foi feita uma animação dos desenhos do arquiteto. A linha, toda em ouro e diamantes, vem em caixas exclusivas feitas em um material com aspecto de concreto (eu acho que é pedra sabão) e todas as peças levam assinatura do próprio Oscar.

Para ajudar na divulgação, alguns blogs relacionados ao assunto foram selecionados e receberam todo o material do press release, junto com uma dessas lindas caixas. Eu não poderia deixar de dizer o quanto fiquei lisonjeado por estar entre os escolhidos. Quem se interessar e quiser mais informações sobre a coleção, pode me procurar. E se alguém quiser debater sobre a obra dele, eu também topo. Mas sem clichês, vai?

A Casa Bola, de Eduardo Longo (agora com dedicação)

Monday, October 27th, 2008
Depois de um bom tempo sem escrever em virtude do excesso de trabalho, entro estes dias para ver a quantas anda meu blog, e me deparo com um comentário do grande arquiteto Eduardo Longo no post que escrevi sobre sua Casa Bola. Ele contradisse algumas informações que eu obtive com o próprio e estando lá, e eu, claro, não posso saber mais que o autor do projeto e morador da casa. Mas fui atrás do trabalho que desenvolvi sobre ela na faculdade, e mais uma vez me surpreendi com a ousadia e precisão do desenvolvimento conceitual do projeto. Aqui, alguns trechos:
‘No decorrer do ano (1972), dedicou-se particularmente a dois projetos: um edifício de apartamentos, para o qual imaginou uma estrutura metálica na qual seriam“plugadas”, como gavetas, as unidades de moradia; o outro era de casas numa ilha muito escarpada. “Estava num fim de semana em Ubatuba desenhando essas casas da ilha, quando comecei a relacioná-las com árvores. O tronco seria a coluna de sustentação e a copa, o volume habitável. De repente percebi que esse volume poderia ser um esfera, da mesma forma que os apartamentos do prédio.” (…)
(…) O tempo se passou e ele teve vontade de sair daquele ambiente exclusivo. “Primeiro deixei o portão escancarado, já foi um progresso enorme. Depois entreaberto, com frestas que aumentavam até escancarar. Nessa vontade de me abrir para a rua, um dia “descobri” o piloti, e pensei que seria uma maravilha se o térreo da cidade fosse todo público e a propriedade privada começasse daí para cima. Brinquei com os meus amigos, dizendo que faria da minha casa uma passagem pública e ia morar em cima. Nesse momento, era só um jeito de dizer.”(…)

(…)“O que me norteava era a idéia da bola, um projeto para o apartamento do futuro. Par executá-lo, precisava saber quais seriam os hábitos do futuro, reconsiderar valores. Tinha de repensar tudo, voltar ao macaco para conferir como ele se comportaria se não tivesse toda a carga civilizatória. Eu queria mexer fundo, chegar a essência.”
Um dia não resistiu e pintou de vermelho seu ex-grande fetiche, o Porsche, e deixou o carro sem pneus, apoiado em pilhas de revistas, com plantas dentro. Os amigos tiveram a certeza de que ele enlouquecera de vez. O próximo passo seria pintar tudo de verde-militar, que significava a disciplina, o fim da euforia, a vontade de ordenar tudo. Passou a quebrar paredes, fazendo a “arquitetura da supressão”(…) Eduardo também decidiu que estava na hora de concretizar sua idéia de esfera, fazer um protótipo para ver como ela funcionaria. Examinadas várias possibilidades de terreno, pensou: “ Por que não fazer em cima da minha casa?”

O processo construtivo levou quase seis anos e, se Eduardo tivesse escolhido outro terreno, talvez não conseguisse chegar até o fim. Foram anos de muito trabalho, começar tudo do zero, pesquisar todos os detalhes e executá-los literalmente com as mãos. Ele nem sequer chegou a pedir licença à prefeitura para construir a bola, porque sua idéia era realizar uma maquete que depois seria jogada fora, com lonas ou tábuas de obra. Pensou inicialmente em fazê-la com 5 m de raio, mas o tamanho do terreno não permitia. Em 1974, a estrutura estava pronta, composta de tubos metálicos ocos, dispostos sobre a forma de meridianos e paralelos, e com 4 m de raio. Acabou se decidindo pela argamassa armada, com 2 cm de espessura, para a vedação externa.
A idéia inicial era fazer uma casa mais livre, sem paredes ou divisões. No processo, percebeu que se tornaria difícil propor simultaneamente uma nova forma para um estilo de vida também novo. Resolveu então reproduzir o tipo de apartamento mais procurado pelas imobiliárias, com suítes, lavabo social, quarto de empregada etc., num esquema de vida bem convencional.

O desafio foi efetuar isso de forma absolutamente não convencional, de modo que cada peça colocada ali dentro pudesse ser feita por ele próprio, ainda na busca de essência. “Minha intenção foi examinar todos os elementos de uma casa, fazer perguntas: o que é uma pia, um puxador de portas, um sofá? A pesquisa era muito pragmática. Eu não tinha idéia de como era um vaso sanitário por dentro. Comprei um numa demolição e quebrei para construir o meu, incluindo o sistema da descarga”. (…) Seu sonho era ter um grande molde onde pudesse ser injetado um material polivalente, o plástico. Pesquisando algo de máxima industrialização, fazendo-a artesanalmente. (…) Finalmente a casa foi concluída em 1979. O resultado surpreendeu. Eram 135 m² de piso organizados em meios níveis.’

Vale ainda conferir os outros dois projetos atrelados a este: a casa sobre a qual foi feita a bola, um retangulo cortado diagonalmente para funcionar como casa e escritório do arquiteto, e a casa bola de 1983, feita para os seus pais. Esta segunda, apesar de mais espaçosa e bem executada que a primeira, a meu ver perde um pouco do conceito da primeira ao depender de uma grande área anexa com áreas de serviço e garagem, seguindo moldes absolutamente tradicionais. Em todo caso, deixo aqui registrada minha admiração pelo trabalho do Sr. Longo, ainda mais sendo ele um dos maiores visionários da arquitetura brasileira.

O retrofit no mundo

Monday, September 8th, 2008
A arquitetura foi, desde as primeiras grandes civilizações, a arte máxima do espaço, a transformação de áreas de culto aos deuses em majestosos templos e de enormes residências de nobres em suntuosos palácios. Uma arte aplicada ao meio. O modernismo marcou a primeira metade do século XX pela transformação da arquitetura em uma arte associada a uma ciência. Os arquitetos jogavam utopias sobre o ser humano em uma tentativa vã de dobrá-la aos seus ideais, criando novas realidades. O pós-modernismo veio corrigir a hierarquia do trabalho, fazendo os arquitetos subjugarem seu trabalho ao entendimento dos sistemas de relações interpessoais e urbanos, construindo em função do seu usuário.
Um dos maiores desafios da arquitetura contemporânea já não tem a ver com o objetivo final, que é a população. Tem sim que lidar com o material extremamente heterogêneo que a história oferece, e que mais do que nunca pediu soluções emergenciais. Cidades inchadas, sufocadas em seus próprios terrenos, tendendo à decadência e ao colapso urbano. Nova Iorque, por exemplo, fechada em suas ilhas, não tem saída a não ser alguns fenômenos de revitalização como o do tão falado Meat Packing District, catapultado ao status de hype a partir de ações físicas efetivas e uma ajudinha de marketing por quatro novaiorquinas promíscuas de uma série de TV.
Dois projetos muito similares mostram como o patrimônio histórico é tratado como um artigo vivo no mundo, e não como peça de museu.
O primeiro projeto é da livraria El Ateneo, localizada em plena Avenida Santa Fé, em Buenos Aires, de autoria de Fernando Manzone. O edifício construído há mais de um século no moldes nos nossos teatros municipais abrigava espetáculos musicais. Seus camarotes deram lugar a seções especiais e lounges de leitura, seu vão livre recebeu escadas rolantes e o subsolo hoje comporta um auditório para 200 pessoas e um playground literário para o público infantil. O programa ainda tem área de exposição e comercialização de arte, salas de internet e café.

Com a mesma proposta de livraria, mais em condições ainda mais ousadas, o grupo BGN e o governo da cidade de Maastricht se uniram para revitalizar uma igreja dominicana pertencente a uma congregação religiosa entre 1360 e 1794. O estúdio Merck+Girod, autor do projeto, não quis interferir nos incríveis vitrais e nas vertiginosas arcadas ogivais do templo, e preferiu construir a livraria Selexyz em uma estrutura independente que não interferisse nas perspectivas da igreja e ainda dobrasse a área comercial, a pedido do cliente.
A solução foi uma gigantesca estante de livros de três andares, circundada por passarelas e escadas que tomam apenas uma lateral da nave central. A área do altar recebeu um café da grife Coffeelovers e uma enorme mesa de leitura em forma de cruz. Convenhamos, você compraria seus livros em um shopping center se tivesse uma igreja gótica ao seu dispor?
Fotos de mais livrarias e bibliotecas incríveis pelo mundo eu achei aqui e aqui.

O retrofit no Brasil

Thursday, September 4th, 2008
projeto de Ramos de Azevedo, retrofit de Paulo Mendes da RochaNo Brasil, a completa inoperância do Governo, associada administrações de patrimônio história extremamente conservadoras e inflexíveis, e um mercado imobiliário voraz, nos fazem engolir ‘Alphavilles’ e ‘Barras da Tijuca’ como futuro para nossas cidades, enquanto os centros de esvaziam e se arruínam, periferias entopem como esgotos, e a classe média se fecha em carros blindados, estacionamentos e muros de condomínios.
O retrofit é hoje uma das disciplinas mais trabalhadas na Europa, que nada mais é do que a requalificação de construções antigas para adequá-las a novos usos e reintegrá-las à vida urbana. Seja para transformá-las em residências, comércio, grandes instituições públicas ou mesmo para mantê-las como marco da cultura e da história, o retrofit pode e deve ser aplicado a boa parte dos edifícios hoje largados às traças e aos cortiços invadidos que dominam a riquíssima paisagem dos centros de São Paulo e Rio de Janeiro.

Existe retrofit no Brasil? Não podemos negar que sim. Temos que admitir que alguns desses projetos foram maravilhosamente executados, como no caso da Pinacoteca de São Paulo nas mãos de Paulo Mendes, ou seu anexo, no antigo prédio do DOPS, importante construção da história do Brasil da ditadura, ou o já clássico projeto da Lina Bo no SESC Pompéia. O Banco do Brasil espalha seus centros culturais pelo país, e em Porto Alegre um hotel foi ‘condecorado’ com esse título. Mas os esforços hoje nesse processo pecam quase sempre em seu objetivo final, fazendo brotar da terra uma infinidade de ‘centros culturais’ que muitas vezes nem objetivo de ser tem. Ou pior, restaura-se o edifício e entrega-se o espaço para usos indefinidos, o que pode acabar com as potencialidades do projeto (vide a Casa das Caldeiras, em São Paulo).

Antigo Hotel Majestic

Centros culturais são sempre bem vindos, e influem positivamente na sinergia urbana do edifício e seus usuários, mas muitas vezes perdemos a chance de interagir diretamente com a arquitetura e inserí-la definitivamente no contexto das nossas vidas. Enquanto na Europa, os edifícios são encarados como espaços a serem utilizados, nós nos prendemos a convenções e questões semânticas e morais antes de propor novos usos aos prédios.

Antigo edifício Alexander McKenzie, onde funcionava a Cia. Light

O retrofit, por aqui, teve alguns pequenos esforços em se livrar das amarras impostas pelo CONDEPHAAT e driblar a estampa perigosa do centro cultural. O Shopping Light, por exemplo, tem uma premissa interessantíssima, mas perdeu-se em um projeto pouco eficiente. Temos hoje em curso na Avenida São João um dos primeiros projetos de retrofit residencial, justo em um edifício do grande Ramos de Azevedo, a espera que uma análise pós-ocupação. Espero que o resultado seja ao menos mais feliz que os inúmeros cinemas nababescos do centro transformados em salas de filmes pornôs deprimentes, ou o cinema do COPAN, fantasiado como uma ofensiva filial da Igreja Universal.

Projeto de Ramos de Azevedo.

Palestra sobre Artacho Jurado, com Ruy Debs

Sunday, August 31st, 2008
Há uns dois meses eu escrevi sobre o lançamento do livro ‘Artacho Jurado – Arquitetura Proibida‘, do professor Ruy Debs. Graças a esse post, e a alguns acasos do destino, acabei por conhecer a Mari Nobre, do blog Flânerie. Além de querida, ela ainda mora no Edifício Planalto, do próprio, e está envolvida na organização de uma palestra sobre o arquiteto com o autor do livro.
A palestra, se não houver mudanças no meio do caminho, será na cobertura do prédio, no dia 24 de setembro às 20hs. Ainda está muito cedo, mas já já eu coloco aqui um convite eletrônico com as infos para se inscrever. Mas, quem for muito apressadinho, pode entrar no blog da Mari para conversar com ela, ou ver as fotos da festa FlickrNight, que aconteceu neste mesmo salão e tem fotos incríveis não só da arquitetura, mas da vista deslumbrante lá de cima.
Se eu souber de mais alguma coisa, eu aviso.
PS: Vida de arquiteto não é fácil, ainda mais depois de julho. Vou tentar não ficar tanto tempo sem escrever, prometo.
PS2: A foto é do Leonardo Tura, que além de amigo, é um fotógrafo de mão cheia e mora num apartamento deslumbrante em um prédio do Artacho, mas não vou contar qual. Dá uma olhada no Flickr dele e tenta descobrir.

Athos Bulcão, mestre brasileiro da arte como arquitetura

Monday, August 4th, 2008
Morreu no dia 31 de julho aos 90 anos de idade, em decorrência do Mal de Parkinson, o artista plástico carioca Athos Bulcão. Ele é responsável pela marca registrada da arquitetura brasileira modernista de uso de grandes murais e painéis trabalhando a simbiose desta com as artes plásticas.
Athos cursou medicina até o terceiro ano na década de 30, mas largou o curso para se dedicar exclusivamente à arte. Foi amigo da ‘elite’ modernista brasileira, como Carlos Scliar, Jorge Amado, Pancetti, Burle Marx, Milton Dacosta, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, e Manuel Bandeira. Aos 21 anos, trabalhou como assistente de Cândido Portinari no mural da Igreja de Pampulha. Neste projeto, além de aprender sobre o planejamento sistemático de desenhos e cores, o artista conheceu Oscar Niemeyer, com quem firmaria uma importante parceria em Brasília.
A partir dos anos 50, com a construção da capital, seu trabalho desponta não no mercado das artes tradicional, mas como parte da paisagem urbana. São trabalhos seus os azulejos e vitrais para a Igreja Nossa Senhora de Fátima e do Palácio do Itamaraty, relevos para o Teatro Nacional, em Brasília e para o Memorial da América Latina, em São Paulo e murais na Câmara Legislativa, Congresso Nacional, Palácio da Alvorada e do Planalto, Memorial JK, etc. Nos anos 70, Athos passa a trabalhar ativamente com o arquiteto Lelé, principalmente nos maravilhosos hospitais da rede Sarah Kubitschek. Seus trabalhos ainda podem ser vistos na França, Itália, Argélia, Argentina e Cabo Verde.
Athos não acreditava em inspiração ou na criação gestual, as obras já começavam inteiramente pensadas. Para ele, o artista precisava de talento e muito trabalho. “Arte é cosa mentale“, diz, citando Leonardo da Vinci. Hoje, com a valorização da estamparia e de grafismos geométricos, o trabalho dele não poderia ser mais atual.
Estas e mais fotos podem ser vistas no site da Fundação Athos Bulcão.

Programa na Casa Bola

Monday, July 7th, 2008
Andei falando sobre os protótipos de casa que surgiram no século XX com uma onda futurista, de gente que queria salvar o mundo com a arquitetura, e lá citei a Casa Bola, do Eduardo Longo.
Eu estive na casa para entrevistar o Eduardo quando eu estava ainda na faculdade, então posso dizer que ela não está tão conservadinha quanto parece, não é tão aconchegante e espaçosa quanto pintam, e ele não mora (e acho que nunca morou) lá. Mas a experiência de visitá-la é realmente fascinante, e sim, eu desci no escorregador. Então, para quem quiser dar uma olhada no interior dela, tem esse video de uma TV inglesa no Youtube.

Livro: Artacho Jurado – Arquitetura Proibida

Monday, May 19th, 2008
Acontece amanhã, dia 19 de maio, o lançamento do livro ‘Artacho Jurado – Arquitetura Proibida’ de Ruy Eduardo Debs Franco, na Saraiva do ex-Shopping Paulista, às 19hs. Para quem não sabe, Artacho Jurado foi um empreiteiro que, nas décadas de 30 e 40, driblou todo o elitismo do CREA junto aos arquitetos para espalhar pela São Paulo cinzenta edifícios residenciais lindos, coloridos e hoje em dia disputadíssimos.
Por não ter formação ou licença para assinar projetos, Artacho sempre fez uso da assinatura de terceiros para pôr de pé o que ele acreditava que faltava na cidade. São prédios revestidos de cima a baixo com pastilhas coloridas, em sua maioria rosa, com plantas de excelente dsitribuição, unindo o que havia de mais interessante do modernismo com a art nouveau e deco. Foi ele também que adicionou aos projetos residenciais as áreas comuns, hoje tão caras ao mercado imobiliário. Lançando teorias sobre o lazer comunitário, ele sempre incluía em seus projetos jardins, piscinas, saunas, bares e salões de festas. Caso típico é aquele imenso bloco envidraçado sobre o Edifício Viadutos no final da Av. Xavier de Toledo, que muitos compraram a uma nave espacial.
Com uma arquitetura extremamente formalista, que contorcias as leis modernistas de Le Corbusier, e atuando numa área super regimentada, Artacho foi desprezado pela crítica e sofreu represálias de arquitetos renomados, que o excluíram da história da arquitetura da época.



Recentemente, um movimento de valorização do vintage, que acometeu também o mercado imobiliário, fez com que suas obras voltassem a figurar entre as construções mais valorizadas da cidade. Além do Viadutos, temos outros edifícios muito conservados e conhecidos, como o Cinderela, na Rua Maranhão, o Louvre, na Av. São Luis, o Bretagne, na Av. Higienópolis e o Verde Mar, na orla de Santos.
Apenas mais uma curiosidade: a revista hype inglesa Wallpaper considerou o Edifício Bretagne um dos melhores para se viver no mundo.
(A primeira foto é do Ed. Louvre, e é minha. A segunda e a terceira são o Viadutos e o Bretagne, são do Claudio Zeiger e foram tiradas daqui. A última é o Verde Mar e foi tirada daqui. Mais fotos podem ser vistas aqui.)

X-Fail em São Paulo

Monday, May 12th, 2008

E inauguraram finalmente o mais novo elefante branco da arquitetura brasileira: a ponte Octávio Frias de Oliveira. Passando sobre a Marginal Pinheiros, ela possui duas pistas curvas de 190m cada estaiadas a um imenso pilar em ‘X’ de 138m de altura, equivalentes a um prédio de 46 andares. A obra custou ‘módicos’ 260 milhões de reais, e já foi adotada pelos paulistanos, ávidos por qualquer marco que tente embelezar a cidade, como cartão-postal. Kevin Lynch se revolve no túmulo.

São Paulo há muito busca algum tipo de identidade visual em meio ao caos e à feiúra que dominou cada ruela. Primeiro elevaram a Avenida Paulista a status de marco. Convenhamos, uma avenida larga e longa, ladeada por uma série de prédios nem tão altos, nem tão bonitos, nem tão modernos assim. Apenas mais uma avenida comercial, como em qualquer grande cidade do mundo. Catedral da Sé, Parque do Ibirapuera, tudo mais do mesmo. O MASP sim tem porte para assumir tal posto. Uma construção única e universal na sua proposta, em uma localização perfeita. Mas brochou, graças à sua lamentável administração, e à assombrosa paisagem que tomou conta da vista do térreo. Assim considero as carambolas e melancias de Ruy Ohtake como um sopro de novidade (questões estéticas de lado).

Agora prefeituras e empresas de engenharia nos enfiam goela abaixo o que eles chamam de uma construção única no mundo, como se fosse caramelo para criança. ‘A única ponte estaiada curva dupla do mundo!’ Óoooo! Todos os engenheiros que comentam a obra insistem em ressaltar a dificuldade de se calcular as forças exercidas sobre os estais em pontes curvas, ainda mais no caso da dupla. A Europa, que tem as melhores tecnologias e os melhores projetistas do mundo nesse aspecto, fez algumas poucas e simples. Por que eles nunca pensaram em fazer uma dupla, pergunto eu? Talvez pela grande dificuldade, com péssimo resultado estético e alto custo de obra? Então para que mesmo os brasileiros pernósticos a ponto de quererem fazer a primeira? O mundo deve estar rindo da nossa cara, como nós tão deliberadamente fazemos em relação aos portugueses.

O que mais me incomoda é a facilidade como a população leiga se animou com o monstro X. A falta de repertório faz com que as pessoas achem aquele novelo amarelo bonito, só porque é algo nunca visto. Mas não é preciso ser pós-graduado para perceber que a composição não tem ritmo, esbeltez, harmonia ou ordem. É uma teia de aranha fluorescente com uma grande bigorna Acme no meio. Eu preferia até a divertidíssima ponte-piada do Marcio Kogan. Se ao menos todos tivessem a oportunidade de conhecer as lindas pontes de Sir Norman Foster, ou melhor, as esculturas em forma de harpa do mestre Santiago Calatrava.





Isso sim, pode-se chamar de poesias que cruzam rios. A nossa é apenas mais uma forma frustrada de conter o trânsito cada vez mais enlouquecedor. Terminar o Rodoanel, melhorar o transporte público, acabar com o inchaço urbano… quando será que os projetos urbanos serão mais estratégicos e menos paliativos? Em tempo, quantos quilômetros de metrô se constroem com 260 milhões?