WaterCube, de PTW Architects em Pequim
August 5th, 2008
Em semana de abertura de Olimpíadas, e com o trabalho arquitetônico inigualável que se tem feito para esta edição de Pequim, não poderia deixar passar em branco esta semana sem ao menos comentar o espetácular complexo de águas do escritório australiano PTW Architects, e foi contruído pelo grupo peso-pesado mundial de construção civil Arup.
O National Aquatic Center, ou Watercube como foi apelidado, vai sediar todos os eventos de natação, pólo aquático e saltos ornamentais dos Jogos Olímpicos de 2008 em agosto, mas já foi inagurado em fevereiro. Tem uma área de 80mil metros quadrados e abriga até 17mil espectadores. Mas o que impressiona mesmo é a membrana azul que recobre o imenso edifício quadrado. Com tecnologia de ponta, o projeto reveste a arena com uma estrutura geodésica irregular que simula bolhas de sabão.
Nem preciso dizer que o prédio tem todo o blablablá de eficiência ecológica e captação de recursos de energia solar. Aqui, a tecnologia age não só em favor do meio ambiente, mas em especial em favor de um espetáculo estético, principalmente à noite. A membrana feita de teflon transparente ultraleve é feita para reagir à luz das projeções, ampliando sua luminescência, e as diversas camadas de ‘bolhas’ detêm 90% do calor do sol no ambiente interno e este é usado para aquecer a água das piscinas.
A proximidade com o Ninho evidencia a pirotecnia preparada pelos chineses, causando um contraponto muito interessante entre o a malha vermelha redonda e o cubo líquido azul. Pelo menos em termos de arquitetura, estes Jogos Olímpicos serão históricos. E o Brasil ainda quer trazer os Jogos para cá. Como? recuperando o jurássico Maracanã? Eu sinto vergonha alheia de nós.
Athos Bulcão, mestre brasileiro da arte como arquitetura
August 4th, 2008
Morreu no dia 31 de julho aos 90 anos de idade, em decorrência do Mal de Parkinson, o artista plástico carioca Athos Bulcão. Ele é responsável pela marca registrada da arquitetura brasileira modernista de uso de grandes murais e painéis trabalhando a simbiose desta com as artes plásticas.
Athos cursou medicina até o terceiro ano na década de 30, mas largou o curso para se dedicar exclusivamente à arte. Foi amigo da ‘elite’ modernista brasileira, como Carlos Scliar, Jorge Amado, Pancetti, Burle Marx, Milton Dacosta, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, e Manuel Bandeira. Aos 21 anos, trabalhou como assistente de Cândido Portinari no mural da Igreja de Pampulha. Neste projeto, além de aprender sobre o planejamento sistemático de desenhos e cores, o artista conheceu Oscar Niemeyer, com quem firmaria uma importante parceria em Brasília.
A partir dos anos 50, com a construção da capital, seu trabalho desponta não no mercado das artes tradicional, mas como parte da paisagem urbana. São trabalhos seus os azulejos e vitrais para a Igreja Nossa Senhora de Fátima e do Palácio do Itamaraty, relevos para o Teatro Nacional, em Brasília e para o Memorial da América Latina, em São Paulo e murais na Câmara Legislativa, Congresso Nacional, Palácio da Alvorada e do Planalto, Memorial JK, etc. Nos anos 70, Athos passa a trabalhar ativamente com o arquiteto Lelé, principalmente nos maravilhosos hospitais da rede Sarah Kubitschek. Seus trabalhos ainda podem ser vistos na França, Itália, Argélia, Argentina e Cabo Verde.
Athos não acreditava em inspiração ou na criação gestual, as obras já começavam inteiramente pensadas. Para ele, o artista precisava de talento e muito trabalho. “Arte é cosa mentale“, diz, citando Leonardo da Vinci. Hoje, com a valorização da estamparia e de grafismos geométricos, o trabalho dele não poderia ser mais atual.
Estas e mais fotos podem ser vistas no site da Fundação Athos Bulcão.
La Purificadora de Legorreta + Legorreta
July 30th, 2008
Ricardo Legorreta é um dos mais famosos arquitetos mexicanos, e aos 76 anos, ele parece que já está querendo passar toda sua bossa para o filho Victor. Conhecido pelo hábil uso de cores vibrantes (junto com seu conterrâneo Luís Barragán) e por um processo projetual que une metodologia com forte apelo de design, ele agora se une ao filho na busca de projetos carregados de senso histórico.
O último projeto da dupla é o pequeno ‘hotel-boutique‘ na cidade de Puebla, cidade fundada por espanhóis em 1531 e que hoje é parte do patrimônio histórico mundial da UNESCO. O edifício de pedra, que antes era uma estação de tratamento e engarrafamento de água, dá nome ao hotel. Grande parte da arquitetura foi mantida, estabelecendo-se um interessante diálogo entre os métodos construtivos vernaculares e a decoração arrojada e contempoânea.
A entrada foi conservada inclusive pelo grande letreiro orignal. O usuário, então, é levado a uma enorme escadaria em preda vulcânica preta que leva ao novo bloco dos quartos, e ao bar, com uma glamourosa piscina de vista espetacular do centro histórico e da Igreja de São Francisco. As cores são usadas com parcimônia, e só ganham o destaque praticado pelo arquiteto nos muitos sofás e pufes modulares violetas distribuidos por toda a área comum.
Os materiais usados também respeitam a arquitetura histórica, e tende a acabamentos rústicos como madeira de demolição, alvenarias caiadas em branco e pedras brutas da região. A decoração dos quartos faz o contraponto com as pesadas paredes de pedra, valendo-se de divisórias de vidro quase imateriais e leves estruturas de aço que se projetam para fora como sacadas, pontuando a fachada do prédio.
SGAE em Santiago de Compostela, de Ensamble Studio
July 25th, 2008
Em 1995, uma família de banqueiros doou um parque para a sociedade espanhola, e a partir de um masterplan de Arata Isozaki & Associates, a área está se tornando um grande polo de cultura da cidade de Santiago de Compostela. Depois do centro de estudos internacionais e da escola de música da Universidade de Santiago de Compostela, acaba de tomar forma o inspirado projeto da SGAE (Sociedad General de Autores y Editores), que cuida da propriedade intelectual de diretores, roteiristas, escritores, compositores e coreógrafos do país.
O projeto do Ensamble Studio, posiciona a sede da SGAE de forma que sua frente olhe para o Parque Vista Alegre, e suas costas abracem a curva de uma movimentada avenida. A longa fachada principal é formada por uma escultura de blocos e restos de granito cortado na região, e dispostos despretensiosamente, de modo que o próprio peso das pedras forma estrutura, fechamento e textura. Alguns cabos de aço oferecem segurança ao conjunto, mas o arquiteto Antón García-Abril insiste que a estabilidade é fruto meramente da força da gravidade.
A escultura é um dos lados de um enorme corredor, fechado em seu outro lado por uma fascinante muralha de caixas plásticas de CDs e DVDs, em uma ‘ode à era digital’. Esta parede é iluminada à noite por trás com LEDs que variam de cor infinitamente. Vista do parque, a fachada multicolorida faz referência aos vitrais das catedrais góticas, emoldurados pelo peso do granito. Em um centro de peregrinação tão importante no mundo, a metáfora é forte.
O interior do prédio não deixa de ser surpreendente, em destaque para o uso dos materiais. O programa é divido em quatro blocos, que conversam através de elementos arquitetônicos intrigantes. A ‘administração’ é fechada por paredes de vidro translúcido, oferecendo uma iluminação branca suave e uniforme e a noite fica suscetível aos intercâmbios cromáticos do corredor de entrada. O andar de se divide em ‘educacional’ e ‘difusão cultural’ tem paredes onduladas, concretadas entre toras de pinus e eucaliptos alinhadas e depois retiradas. A iluminação marcada oferece um tom ainda mais dramático ao espaço. Essas mesma toras cobrem as paredes dos laboratórios de informática da área ‘pública’.
A descoberta do projeto se faz ainda mais instigante pelo contraste formado com a fachada posterior, voltada para a cidade, que mistura sobriamente o vidro laminado com tradicionais painéis de pedra e chapas de aço.
PS: Infelizmente achei pouquíssimas fotos o projeto pronto. As poucas boas que achei foram aqui, aqui e aqui. Se eu achar mais eu publico e aviso.
MVRDV, a Holanda de vanguarda
July 23rd, 2008
A arquitetura holandesa do século XIX briga por centímetros de nariz com a espanhola pelo pódio, mas elas concorrem com trunfos diferentes. Enquanto a ibérica se esmera em plásticas poéticas e grandiloqüência lúdica, os Países Baixos apresentam as soluções mais inovadoras em questões teóricas, urbanísticas e antropológicas. Talvez a condição territorial tenha forçado o estudo precoce de projeto sobre uma natureza fabricada, e só agora o resto do mundo entenda o que é habitar um mundo em colapso.
O escritório MVRDV, sediado em Rotterdam e formado pelos arquitetos Winy Maas, Jacob van Rijs e Nathalie de Vries, é um dos mais expressivos e prováveis grandes sucessores do incansável Rem Koolhaas, um dos maiores críticos do urbanismo pós-moderno. Não à toa, os dois sócios colaboraram com Koolhaas nos anos 80 no OMA (Office for Metropolitan Architecture), enquanto Nathalie trabalhou no escritório Mecanoo.
Com uma arquitetura singular, analítica e metodológica, busca uma posição fora do campo da arquitetura, intervindo socialmente e ecologicamente no meio. A estética resultante, sejamos sinceros, é complexa e muitas vezes polêmica. Mas a provocação visual intrínseca às suas teorias são sempre fortes armas de posicionamento frente às discussões por elas geradas.
Formado em 1991, o trio ganhou notoriedade pelo projeto do pavilhão holandês na Expo 2000 em Hannover. Uma torre de paisagens empilhadas (campos de tulipas, dunas, florestas, um lago e moinhos de vento no topo) discutia a auto-suficiência de recursos naturais em áreas compactas e populosas, bem antes das recorrentes manchetes alarmistas de aquecimento global.
A obra deles ganhou notoriedade e se espalhou pelo mundo. Projetos como os vertiginosos apartamentos do asilo WoZoCo em Amsterdam, intrigam e instigam o observador a conhecer de perto. Os edifícios residenciais Mirador, em Madrid e Silodam, também em Amsterdam, propõem novas tipologias de adensamento. O projeto de casas em uma encosta em Liuzhou, na China, coloca a habitação como forma de conter a erosão do solo (favelas ecológicas?). E o corrente anexo do Cleveland Institute of Art serpenteia-se ironicamente sobre o edifício original careta.
Cidade do medo
July 21st, 2008
Ontem arrombaram meu carro. Estacionei em frente a um shopping-center movimentado por 10 minutos necessários para se comprar um ingresso de cinema e voltei a tempo de ver 4 adolescentes fechando as portas e indo embora. Não levaram nada, porque nada havia para se roubar.
Hoje recebo a revista Trip de julho (#168), e o tema da edição é MEDO. Curioso foi perceber que uma boa parte da revista trata de arquitetura e urbanismo, pois curiosamente estas são as áreas onde o medo mais fica latente. ‘As cidades contemporâneas, instaladas sob o signo do medo, são imensas massas construídas com quase nenhuma arquitetura. Gradeamos praças, nos isolamos em muros altíssimos em nossas casas e trancamos nosso olhar em janelas que não se abrem ao vento.’ escreve Ciro Pirondi, diretor da Escola da Cidade.
Moro em um prédio dos anos 50, e o primeiro comentário de 100% das minhas visitas é sobre as enormes janelas que trazem a cidade para dentro da minha sala. Muitas delas não percebem que o choque ao ver minha fachada quase corbusiana acontece exatamente porque elas se acostumaram a viver em bunkers mal-iluminados, com aberturas mínimas obrigatórias pelo Código de Obras. Elas não entendem que gostam de jantar no Spot, não porque a comida é boa, mas porque o restaurante se abre para um gigantesco espaço vazio em plena Avenida Paulista.
O pintor trabalha a imagem, o escultor trabalha o volume. O arquiteto tem como matéria-prima o vazio. É no vazio que entram os raios de sol, a brisa da manhã, o barulho dos pássaros. Nos bunkers que mercado imobiliário chama de condomínios só entra a alienação, a segregação e a asfixia. As pessoas saem blindadas de suas casas diretamente para outras garagens. Seu contato com a cidade é protegido pelo insulfim. A vida é um grande estacionamento.
A negação do espaço público não é exclusividade dos bem-nascidos. As periferias há muito deixaram de ter a cara de ‘cidade do interior’ e também aderiram aos muros com lanças no topo, grades e arame farpado. A rua é terra de ninguém. A arquitetura hoje usa elementos medievais de proteção: muralhas, fossos, torres de vigia e trincheiras.
Em 1961, Jane Jacobs escreveu o tratado ‘Morte e Vida nas Grandes Cidades‘. Hoje o livro é tido como ultrapassado, mas é surpreendente perceber que há 40 anos já se delineava uma situação que hoje passou do controle. Ela pregava a zeladoria da própria sociedade como a forma mais eficaz de manutenção da segurança e da democracia nas ruas. Em tempos de individualismo patológico, o carro é arrombado no meio de dezenas de pessoas e nenhuma delas esboça reação.
Na carta de Ricardo Guimarães, presidente da Thymus Branding, que encerra a edição da revista, levanta-se a questão de que uma empresa pode desmoronar mesmo se todas as áreas são totalmente eficientes, mas existe problemas entre as áreas. A cidade não é um mero aglomerado de lotes, e sim a malha pública que une a todos eles. Na hora em que nos encarceiramos em nossos próprios umbigos, a rua vira zona de guerra: o mais forte leva, e nós a estamos perdendo.
Ricardo sugere que ‘baixemos os muros até o ponto que dê para ver a rua e o vizinho. Assim, um cuida do outro e todos do que é comum. Quem sabe, com muros mais baixos, a gente veja o ladrão antes de ele invadir nossa casa ou até mesmo antes de ele ter alguma razão para virar ladrão.’ Talvez um pouco da mesquinhez com a vida alheia que vemos em Wisteria Lane seja saudável. Jane Jacobs nunca esteve tão certa.
Novo Museu da Acrópole em Atenas, de Bernard Tschumi
July 15th, 2008
O arquiteto Bernard Tschumi é mais conhecido pelos seus livros e seus ensaios sobre arquitetura do que por seus projetos em si. O mais expressivo deles até hoje talvez seja Parc de La Villette, a nordeste de Paris, com seu mosaico de cubos vermelho-sangue espalhados pelo verde. Agora ele volta a figurar a mídia especializada por um projeto um tanto controverso, não formalmente, mas em sua essência: o Novo Museu da Acrópole, em Atenas.
O museu em si é parte de uma grande briga diplomática entre Grécia e Inglaterra, já que grande parte do seu acervo é formado pelos Mármores de Elgin, ornamentos do Parthenon original, metade dos quais em exposição até pouco tempo no British Museum. Além disso, o museu foi construído a cerca de 300 metros da própria Acrópole, em um importantíssimo sítio arqueológico. Por último, o museu se conecta com uma as mais aclamadas e influentes obras da humanidade.
O grande volume de vidro resultante olha diretamente para a Acrópole, permitindo a vista do Parthenon pelos visitantes do museu. O uso de pilotis é justificado pela mínima interferência no terreno, liberando as áreas de escavações ainda ativas e visíveis sob o chão de vidro do museu. As galerias internas são dispostas de forma que os objetos sejam expostos em ordem, formando uma grande história, e não de forma aleatória como estavam no museu inglês.
Tschumi define o museu como um ‘anti-Bilbao’ por se tratar de um projeto contextualizado em seu sítio, nascido de uma coleção de arte, e não de seu container. Conta que fez uso de apenas três matérias – vidro, aço e mármore – com objetivo de expressar pureza e simplicidade, e evidenciar a matemática rígida aplicada ao desenho, como faziam os gregos de então.
Mais fotos incríveis eu encontrei neste flickr.



























































